Pode uma criança de quatro anos testemunhar o homicídio do pai e “sobreviver” ao que viu?

Fevereiro 18, 2011 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Público de 8 de Fevereiro de 2011.

Foto de Daniel Rocha

Foto de Daniel Rocha

 

Por Paula Torres de Carvalho

Acompanhamento das crianças que viveram experiências violentas é determinante para que elas as “arrumem” internamente.

Uma criança de quatro anos viu o avô matar o pai com cinco tiros no jardim onde brincava, no passado sábado, em Oliveira do Hospital. Como “sobreviverá” a este acontecimento? O que fará das guerras e discussões que presenciou nos primeiros anos da sua vida? O que acontece às crianças que assistem à separação dos pais entre desavenças e insultos e são usadas como “arma de arremesso” de um contra o outro?

“Depende do que acontece a seguir”, diz José Luís Pais Ribeiro, psicoterapeuta e professor de Psicologia da Universidade do Porto. O homicídio foi “um incidente-limite”, nota. Tudo dependerá agora da forma como a criança “for reconstruindo a história, como a for elaborando e integrando”.

Pais Ribeiro explica que “todos os acontecimentos são passageiros desde que não sejam acarinhados” e que o ambiente que vai rodear a criança e as relações que vai ter, “tudo vai contar para a maneira como ela vai encaixar” o que aconteceu. A sua “capacidade de resiliência” (processo de resistir a situações adversas sem ficar traumatizado) é determinante, considera.

A ultrapassagem dos episódios violentos na vida de uma criança depende da “qualidade do acompanhamento que cada uma terá depois”, afirma Emílio Salgueiro, médico pedopsiquiatra e psicanalista.

O divórcio e a separação entre os pais “é sempre uma violência para a criança”, mesmo que corra de uma forma dita “civilizada”, nota Salgueiro. As discussões, desavenças e tentativas de manipulação da criança por um dos pais contra o outro, a forma como um deles denigre constantemente a imagem do outro perante o filho, levam muitas vezes à “desorientação e à depressão, provocam insegurança e desconfiança” e fazem com que as crianças “aprendam a usar estratégias para lidar com cada um dos pais”, diz Salgueiro.

O facto de terem como modelos um pai e uma mãe zangados também deve ser considerado, não sendo de excluir a hipótese de a criança vir a reproduzir esses comportamentos, segundo “mecanismos de transmissão transgeracional”, nota Emílio Salgueiro. O “traumatismo pode ser, no entanto, reabsorvido” se a criança for “bem apoiada”, diz.

Litígios aumentam

“Todos temos capacidade para esquecer as coisas desagradáveis”, nota Pais Ribeiro. “O aparelho psicológico elabora e arruma as coisas para nos protegermos.” Não é possível, por isso, afirmar que há um efeito claro dos acontecimentos violentos, já que “o impacto não é do mesmo tipo”. Nalgumas crianças, pode “não ter efeito nenhum”, noutras pode ter “efeitos perversos”, noutras ainda “pode ter um efeito dramático”. Mas se isso se observa “nunca é por causa de um único episódio”, mas do que acontece a seguir – por exemplo, se o que sucedeu é transformado e apontado como um estigma.

Dados do Instituto Nacional de Estatística referem um crescimento anual de separações na ordem dos três por cento, fazendo prever um aumento de litígios em tribunal no que respeita à regulação do poder paternal das crianças. E o que se observa é que continua a ser “muito pouco o que se faz em benefício dos filhos e do interesse da criança”, como diz Emílio Salgueiro.

“Os tribunais de família vão ter cada vez mais que fazer no futuro”, prevê, salientando a necessidade de respeitar o “tempo da criança” e resolver o problema das “demoras” nas decisões, que tantas vezes deveriam ser tomadas em dias e acabam por ser adiadas durante meses.

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