Símbolo ‘CE’ nos brinquedos não é sinónimo de segurança

Dezembro 20, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Diário de Notícias de 12 de Dezembro de 2010.

Fotografia Diário de Notícias

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por Catarina Cristão

Muitos dos brinquedos que chegam a casa podem conter perigos e armadilhas. Um balão rebentado ou um botão de um boneco podem tornar-se um risco se ingeridos. Os pais devem ser os primeiros inspectores, dizem os especialistas, já que a lei é muito permissiva.

Até o brinquedo aparentemente mais inofensivo pode revelar-se uma armadilha. E nesta época de Natal os perigos multiplicam-se, alertam os médicos. Substâncias tóxicas na composição dos brinquedos, peças pequenas que se soltam, podendo ser engolidas, ou fios com tamanho suficiente para se enrolarem à volta do pescoço de uma criança são os maiores perigos. Um olho de um boneco, uma pequena bola ou a roda de um carro, por exemplo, são alguns dos perigos escondidos.

Em casa da família Amaral, os cuidados vão ser redobrados nesta quadra natalícia. A mãe, Teresa, tem ainda bem presente o pequeno acidente que Isabel, de 4 anos, sofreu há dois meses e que a levou ao serviço de urgência ao hospital.

“Num instante estava tudo bem, no outro estava a berrar e a sangrar do nariz. Fiquei completamente desesperada, sobretudo porque não percebia o que estava a acontecer”, lembra a contabilista, de 32 anos. Chegada às urgências de Santa Maria, uma observação mais atenta permitiu logo identificar o problema: Isabel tinha uma missanga no nariz. “Foram todas banidas lá de casa e objectos pequenos também não entram. Já avisei toda a família”, garante Teresa Amaral.

“Seja de que brinquedo se esteja a falar, os pais têm sempre de fazer uma inspecção prévia ao equipamento, para verificar que existem peças soltas ou em mau estado, antes de os passarem para as mãos das crianças”, atesta Sandra Nascimento, presidente da APSI (Associação para a Promoção da Segurança Infantil), que lembra que são as crianças dos dois aos quatro anos que correm mais perigos.

“Os acidentes com brinquedos ainda são relativamente frequentes e não deviam ser”, atesta o pediatra João Gomes-Pedro, acrescentando: “São sobretudo feridas auto-infligidas na face, nariz, olhos e membros, provocadas pelo movimento pendular do braço ou que saltam dos brinquedos.”

Vanessa Matos já aprendeu a lição. Aos três meses, o filho Rodrigo estava deitado num baloiço de brincar para o entreter enquanto ela fazia algumas das actividades da casa. Em poucos segundos, o hábito rotineiro e normal transformou-se num valente susto.

“Saí da sala por uns instantes para ir à cozinha quando sinto um estrondo. Quando voltei vi o Rodrigo no chão a chorar”, conta Vanessa, de 22 anos. “O encaixe estava com defeito e eu não dei conta. O problema foi que o Rodrigo foi de cabeça ao chão”. No hospital, “os exames revelaram que estava tudo bem, felizmente”, conta.

Não chegou a fazer queixa do equipamento, mas também nunca mais o usou ou comprou outro. “Baloiço? Agora só na perna dos pais.”

A verificação do produto deve ser logo feita na loja, pedindo aos funcionários que abram a embalagem, aconselha a Deco (Associação Portuguesa para a Defesa dos Consumidores). No entanto, nem isso é garantia de segurança.

“O símbolo CE, obrigatório na etiquetagem dos produtos, apenas dá uma falsa sensação de segurança aos consumidores”, alerta a porta-voz da entidade, Graça Cabral. O problema, diz, é que a lei é permissiva e apenas obriga o fabricante ou importador a indicar que o brinquedo respeita as normas de segurança em vigor na União Europeia. Ou seja, “é o próprio fabricante que coloca a marca CE no brinquedo e ninguém vai confessar que o produto é perigoso. Não há uma entidade independente que controle a veracidade do mesmo”, acusa. Para ultrapassar este contornar da lei, em vigor desde 1992, a Deco promete fazer chegar ao Parlamento uma proposta de revisão da lei para breve.

Os médicos advertem ainda que é imperativo escolher um brinquedo de acordo com a idade e o desenvolvimento da criança a que se destina. “Alguns brinquedos que para um adulto podem ter um significado, como uma panela de plástico para brincar, que poderia simular a preparação de uma refeição, para uma criança de poucos anos é apenas um mero objecto para bater e fazer ruído. A questão é que pode partir-se e transformar-se num objecto cortante”, alerta Gomes Pedro.

O pediatra pede especial atenção na altura do Natal, uma época propícia a acidentes, em especial na consoada, em que há mais brinquedos a circular nas mãos das crianças. “Toda a gente pensa em comprar e oferecer brinquedos pelo lado lúdico e de fantasia e esquecem-se da segurança”, adverte. “Um erro frequente é rodear a criança de brinquedos. Isto deve ser evitado, até porque favorece o défice de atenção”, acrescenta a pediatra do desenvolvimento Rosa Gouveia.

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