“Não pode ser só a vítima a sofrer as consequências”

Novembro 4, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social, O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Entrevista da Drª Melanie Tavares (Coordenadora do Projecto da Mediação Escolar do SOS Criança do Instituto de Apoio à Criança) ao Diário de Notícias no dia 29 de Outubro de 2010.

por PATRÍCIA JESUS

O Governo fez bem em propor a criação do crime de violência escolar, incluindo o bullying neste quadro?

Sim. Vejo com bons olhos esta decisão porque acho que é uma forma de defender os direitos das crianças. Neste caso, deles próprios. Vai dissuadir os agressores e ajudar a consciencializar os adultos, para darem mais importância a esta questão.

Não se dá a devida importância?

Acho que algumas pessoas ainda aceitam com demasiada naturalidade a violência nas escolas. Por isso, acho que este projecto vem legitimar o trabalho que está a ser feito, os procedimentos disciplinares que já corriam nas escolas para punir estes casos. Vem dar-lhes outro estatuto e estabelecer limites. É importante para abandonar definitivamente a mentalidade dos nossos tempos de estudantes, em que se achava que a violência fazia parte do crescimento, sobretudo no caso dos rapazes.

Ainda encontra esse discurso?

Sim, nos pais dos agressores, por exemplo. Nas escolas onde temos gabinetes de mediação fizemos um questionário em que perguntávamos às crianças e aos pais o que achavam sobre o bullying e muitos responderam que era normal. Há miúdos que sofrem mesmo com isto. Deixam de ter gosto pela escola, porque não se sentem seguros. Ainda existe muito mais do que aquilo que é visível. Ainda há muito caminho a desbravar. A lei ajuda até o papel dos técnicos nas escolas porque a nossa acção não fica dependente da sensibilidade de cada escola para o tema – passa a haver uma lei que diz que é crime.

A penalização deve ser o último recurso?

Tem de haver bom senso. Tem de se perceber o que é o bullying – é uma violência física ou psicológica continuada, sistemática, às vezes muito elaborada e arquitectada contra o outro, aproveitando as suas fragilidades. Há que saber distinguir isto de uma discussão, em que às vezes até podem andar à pancada, mas não há bullying. Não digo que não devem ser penalizados, mas são casos diferentes.

E o bullying deve ser sempre penalizado, ou há outras formas de intervir?

Passa a ser crime, é crime. Os jovens têm de saber que os seus actos têm consequências. Não pode ser só a vítima a sofrer as consequência para a vida toda e quem foi agressor passar incólume. Claro que muitas vezes os agressores também são vítimas – são agressores dos mais novos e vítimas dos mais velhos. É óbvio que não estão bem e precisam de ajuda. É preciso trabalhar com eles para perceber o que provoca este tipo de comportamentos.

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