Pais de jovens em risco ‘entregam’ filhos ao Estado

Outubro 20, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Diário de Notícias de 12 de Outubro de 2010.

por RITA CARVALHO

Conflitos e situações de risco para os menores levam pais a pedir intervenção.

António começou a faltar às aulas, a passar dias e noites fora de casa e iniciou-se na droga ainda adolescente. Os pais foram chamados à escola mas, quando de casa começaram a desaparecer alguns objectos, deixaram de conseguir exercer a sua autoridade e a situação ficou descontrolada. Desesperados, foram pedir à comissão de protecção de menores o internamento do filho numa instituição.

Casos como o de António são cada vez mais frequentes e estão a chegar às comissões de protecção de crianças e jovens em risco e aos tribunais pela mão de pais desesperados, que vêem os filhos a entrar em situações de risco mas são incapazes de fazer valer a sua autoridade e evitar esse perigo.

Só no ano passado, os pais sinalizaram às comissões 2342 situações de filhos em risco. Ou seja, 8,8% dos casos acompanhados pelos técnicos foram dados a conhecer pelos progenitores, enquanto em 2007 a percentagem era apenas de 7,1%. “Significa que os pais estão a pedir mais ajuda e reconhecem dificuldades em responder à situação de perigo dos filhos, seja porque estes têm problemas de comportamento seja de saúde mental”, afirmou ao DN Armando Leandro, presidente da Comissão das Crianças e Jovens em Risco. Este aumento pode também evidenciar uma maior confiança dos pais nos técnicos.

Contudo, ressalva, a institucionalização é sempre a última solução, só se aplica quando todas as outras falham e em 7% ou 8% dos casos. Mais de 90% das situações resolvem-se com uma intervenção junto da família. “Ouvimos, acompanhamos, fazemos o diagnóstico e fomentamos a formação e capacitação dos pais para uma parentalidade positiva que introduza regras e valores”, diz.

Edmundo Martinho, presidente do Instituto de Segurança Social (ISS), também reconhece o aumento deste fenómeno que já vem referenciado no último relatório de caracterização das crianças em acolhimento como um problema para o qual é preciso encontrar novas respostas. “São os próprios pais que pedem apoio, quando, depois de já terem tentado tudo, reconhecem que o risco dos filhos é muito grande. Nestes casos torna-se tudo mais difícil porque as crianças resistem a ser acolhidas.”

Para o presidente do ISS, esta incapacidade parental decorre também de novos comportamentos de risco das crianças e jovens na sociedade actual, associados a uma adolescência mais precoce, a consumos de álcool e drogas.

“Os pais vêm pedir para ficarmos com os miúdos porque sentem que a única solução é o seu acolhimento. Se a criança tem mais de 12 anos e se opõe, o internamento tem de ser decretado pelo tribunal”, acrescenta António Fialho, juiz do Tribunal de Menores do Barreiro. “Estas crianças não praticaram crimes para necessitar de internamento no sistema tutelar educativo mas encontram-se em risco. São causadoras do seu próprio risco. São marginais e os pais pedem ajuda para resolver o problema, entregando-os.”

António Fialho explica que este fenómeno se verifica também nas famílias da classe média e até alta e não se explica apenas pelas carências socioeconómicas. “Os filhos mandam nos pais e estes acabam por reconhecer que não são capazes de os educar. As responsabilidades parentais continuam a ser dos pais mas os filhos ficam confiados a uma instituição.”

Muitas vezes, os conflitos familiares resultam de uma história de vida baseada num ambiente conflituoso. “As crianças foram criadas entre os conflitos dos pais, às vezes cresceram com base na chantagem de um e outro. Quando estes os querem controlar, já não conseguem. É um ciclo vicioso.”

A Morte do Pato Donald – (Avô, conta-me uma história!)

Outubro 20, 2010 às 1:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Post da Drª Tânia Paias de 26 de Agosto de 2009 no Blog Janela Clínica

A propósito deste tema lembrei-me de um artigo que li há algum tempo na revista Pública do Expresso do Dr. Daniel Sampaio. O artigo iniciava com uma pequena resenha a outro artigo “Os 25 mitos da Pediatria” no qual também se podia ler algumas inovações para pais e professores, mas Daniel Sampaio quis acrescentar a profunda mudança ocorrida nestes últimos anos e intitula o seu artigo como: A MORTE DO PATO DONALD

Depois de alguma procura consegui encontrar o artigo e transcrevo aqui alguns itens que me parecem fulcrais para o assunto em questão.

“O quotidiano da criança mudou. Hoje vão cedo para a creche e não brincam na rua, o peluche caiu em desuso e o Pato Donald morreu. Um menino dos nossos dias que aprendeu a ler não se entretém com uma revista de quadradinhos do Tio Patinhas, como acontecia com os seus pais, até porque só com dificuldade a encontrará nas bancas. Mickey e Minnie, Donald e Margarida, Pateta e Clarabela são “casais” do passado, seres assexuados que só tinham sobrinhos (quem seriam os pais) e se entretinham com estórias que hoje nos parecem inverosímeis. O mundo de hoje é outro: telemóvel e computador, Game-Boy e Play-Station são utilizados com grande à-vontade por crianças pequenas…Tudo está diferente…Morreu o Pato Donald, viva o Pokémon!
A verdade é que nunca, como agora, se tornou tão importante o papel dos adultos junto dos mais novos: com tanta informação rápida, com as imagens a entrarem nas nossas casas deixando dúvidas sobre o que é real e virtual, com o mundo tão imprevisível e por vezes perigoso, a palavra dos familiares é cada vez mais relevante. Pela simples razão que é única e insubstituível: jamais um jogo eléctrónico ou uma pesquisa na internet substituirá a afectividade da narrativa do avô ou a palavra afectuosa de um pai…As crianças precisam de estimular a imaginação e de encontrar segurança na sua relação com os adultos mais importantes, os seus familiares. As famílias já não são três gerações à volta de uma lareira, mas continuam a ser o espaço emocional mais importante para os mais novos.”

Ora na relação que se estabelece entre criança-adulto-livro aparecem laços afectivos muito fortes e a cumplicidade da leitura permite-nos viver a experiência de compartilhar os sentimentos e as emoções que os livros nos proporcionam.

A emoção age principalmente na segurança das crianças, base de todo o desenvolvimento e é preciso dar e criar oportunidades para a expressão das emoções e sentimentos, para que a criança os reconheça e elabora, ora os livros, as narrativas, proporcionam tudo isto, já que são poderosos clarificadores de significados, permitem organizar o real e conceitos como bem/mal; bonito/feio; justo/injusto.

Platão refere que o valor educativo das histórias exerce um fascínio sobre a mente das crianças e Betelheim afirma que estas têm uma forte influência e reconstroem as dimensões mais profundas do sentir e do pensar.

As crianças e a televisão: riscos

Outubro 20, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo publicado no Portal Educare no dia 6 de Outubro de 2010.

Serviço de Pediatria do Hospital de Braga

As crianças com menos de 8 anos, têm muitas dificuldades em entender que a publicidade é uma forma de vender um produto, tornando-se assim impossível ver qualquer defeito no objecto anunciado. Os riscos de ver muita televisão são bem conhecidos e estudados.

Violência
A violência na televisão surge como uma ameaça ao seu filho de duas formas diferentes. Em primeiro lugar, embora os pais queiram transmitir aos filhos que a violência e a agressividade não são o melhor caminho para a resolução de problemas, muitas vezes a televisão apresenta-a sob o ponto de vista dos “bons”, dos heróis que simplesmente fazem justiça e dão aos “maus” aquilo que eles merecem, transmitindo a ideia errónea de que, dependendo de quem a pratica e das suas intenções, a agressividade é um acto justificado. Por outro lado, ver cenas de violência pode assustar a criança, de formas variadas dependendo da sua idade. Dos 2 aos 7 anos, a criança fica particularmente assustada com cenas que apresentam figuras grotescas como bruxas e monstros, pois nesta fase tem ainda alguma dificuldade em distinguir a fantasia e a realidade. Mais tarde, dos 8 aos 12 anos os medos associam-se a cenários de desastres naturais, guerras ou situações em que as crianças são vítimas, quer estas sejam apresentadas em ficção, nas notícias ou em reality-shows.

Comportamentos de risco

Quem vê televisão sabe que quer em séries de ficção, filmes ou anúncios, comportamentos de risco como o consumo de álcool, drogas ou tabaco são apresentados como sendo cool e normal, não apresentando muitas vezes as reais consequências destes hábitos. Da mesma forma, a actividade sexual é muitas vezes banalizada e descontextualizada, não se dando qualquer importância ao perigo de doenças sexualmente transmissíveis, gravidez na adolescência e outras doenças problemáticas que daí poderão advir.

Obesidade

Bem conhecida e comprovada é a ligação entre a televisão excessiva e a obesidade infantil, esta última constituindo já um grave e preocupante problema de saúde pública. As razões desta associação são óbvias: por um lado, se uma criança passa grande parte do seu tempo a ver televisão (actividade que não exige grande dispêndio de energia), passa menos tempo a realizar actividades menos sedentárias como jogar à bola, ou às escondidas, que exigem que corra ou se movimente, tornando-o mais susceptível ao aumento de peso. Por outro lado, a criança é bombardeada constantemente com anúncios de alimentos “fáceis”, apelativos e altamente energéticos como os snacks, hambúrgueres, chocolates, gomas, batatas fritas e bebidas gaseificadas, que ainda por cima associam muitas vezes a oferta de brindes (dos heróis da TV mais conhecidos), tornando-as absolutamente irresistíveis para qualquer criança. Esta combinação de sedentarismo com alimentos de elevado teor calórico é uma das grandes responsáveis pela epidemia do século XXI como já é apelidada a obesidade!

Alteração dos padrões de sono

O risco de vermos alterados os padrões de sono das nossas crianças pelo facto de verem muita televisão apresenta-se sob duas formas: a primeira, e decerto bem presente no dia-a-dia de muitas famílias reside na dificuldade que muitos pais têm em arrancar os filhos da frente do ecrã na hora de deitar. Cada vez mais programas com conteúdos apelativos para os mais jovens passam a horas tardias, fazendo com que muitas vezes o sono seja preterido em detrimento deste ou daquele programa. Deste modo a criança deita-se mais tarde, mantendo a hora de levantar, ficando privada do sono tão essencial para o seu normal desenvolvimento e rendimento escolar. A outra forma da afectação do sono prende-se com o conteúdo dos programas a que a criança assiste. Nos mais novos, figuras agressivas (monstros, bruxas, etc.) geram medos e angústias que podem perturbar o sono causando insónia ou terrores nocturnos. Nas crianças mais velhas, que assistem frequentemente aos noticiários, pode levar a uma certa ansiedade e medo de acontecimentos muitas vezes aí reportados como crimes violentos, guerras ou catástrofes naturais.

Publicidade

A publicidade é um dos grandes perigos da televisão, não só por influenciar aspectos como a obesidade e os comportamentos de risco, como pela ansiedade que pode causar na criança que quer ter determinado produto altamente publicitado. Isto pode constituir um grave problema para os pais na medida em que o filho simplesmente exige o objecto anunciado, causando muitas vezes rivalidades e disparidades entre os pares (os amiguinhos que têm e os que não têm). As crianças com menos de 8 anos têm muitas dificuldades em entender que a publicidade é uma forma de vender um produto, tornando-se assim impossível ver qualquer defeito no objecto anunciado, tornando-o ainda mais apelativo.

Por fim, alguns conselhos para os pais que querem tornar a televisão uma actividade mais segura para os seus filhos:

– Retire a televisão do quarto das crianças e coloque brinquedos, jogos e outras alternativas apetecíveis na divisão onde esta se encontra.

– Desligue-a na hora da refeição, privilegiando assim um momento de convívio em família.

– Seleccione os programas mais adequados de acordo com a idade da criança, e idealmente, veja-o com o seu filho – isso proporcionar-lhe-á uma forma de filtrar conteúdos, bem como ir explicando e educando à medida que o programa decorre.

– Discuta as suas preocupações com outros pais e professores, assim poderá evitar que o seu filho seja o único que não vê este ou aquele programa, sentindo-se de certa forma diferente.

– Veja também poucas horas de televisão: além de dar o exemplo, é mais tempo que poderá passar com o seu filho a praticar desporto, ler ou simplesmente brincar…

Joana Dias com a colaboração de Augusta Gonçalves, pediatra do Hospital São Marcos em Braga


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