A decisão de ter um filho, por Mário Cordeiro

Agosto 25, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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«Francamente, não percebo que raio de ideia lhes deu para terem outro filho! Imagina que o João e a Francisca resolveram ter mais um. Devem ser loucos. Já? Mas não acham que ano e meio de intervalo é pouco? Eu, se fosse a vocês…»  Eu se fosse a vocês… Mas eu não sou vocês. E, com o passar dos tempos, esta verdade de La Palice tem ganho dimensão na minha cabeça. Eu não sou vocês, como ninguém é o outro. Complicado? Demasiado óbvio? Responderia: claro, simples, mas infelizmente nem sempre evidente.

JARDINS SECRETOS OU TERRA DE TODA A GENTE?

O que são os filhos? Quem tem o dever, o direito, a responsabilidade de os planear, decidir ter, criar, educar, fantasiar, projectar? A resposta parece indubitável: os pais. E quando cada vez mais se fala de «parentalidade responsável», talvez seja bom não roubarmos com uma mão o que acabámos de estender na outra.

Todos nós fantasiamos bebés desde os nossos dezoito meses de idade. Desde que embalamos um urso de peluche ou um boneco, desenham-se à nossa frente centenas de filhos, nos quais iremos pensar cada vez que virmos um bebé, um boneco, uma fotografia ou um berço no passeio. A realidade será outra, desde nenhum a muitos, seja ela fruto do acaso que tinge todos os percursos de vida, seja forjada em decisões quase lógicas e racionais. Mas depois de começarmos a pensar em bebés, fantasiamos os pais ou mães dos nossos bebés, o que passa pela sedução do nosso pai ou da nossa mãe, da professora da escola, dos actores e actrizes de Hollywood ou pelas namoradas e namorados do jardim de infância, num dia «os maiores», no outro «meninos para os quais nem sequer olhamos porque são uns estúpidos».

Serve isto para dizer que ter filhos é um projecto a dois, mesmo quando parece não ser. É a dois porque «tem de ser a dois», como diria o «amigo do óbvio», mas também é a dois porque mesmo que a relação seja ocasional, mais sexual do que projecto, há na mente a ideia da concretização da fantasia de ter filhos. É por isso (também) que as pessoas gostam de fazer amor.

Sendo um projecto a dois, maioritariamente baseado em amor, e sendo a criação de alguém (a palavra «criança» vem de «criar»…), envolve fazer, desenvolver, educar, orientar, apontar caminhos, cuidar… e amar. Será então possível que um projecto desta dimensão – o maior, mais fantasiado e melhor estruturado de toda a nossa vida – seja entendido, na sua totalidade, por outros? A resposta para mim é taxativa: não!. Não é nem poderia ser, porque, pelos menos nas comunidades ditas ocidentais, os pais são os responsáveis pelos filhos (a própria legislação é cada vez mais vigilante e punitiva para quem não assume esta responsabilidade) e, perante uma decisão desta dimensão, só a eles cabe decidir e só a eles cabe entender as razões das decisões.

Comentar, falar, emitir conselhos, opinar não é admissível e faz parte de um dos nossos defeitos principais, que é a desagradável relação de poder que a parte menos boa da nossa condição humana gosta de exercer, sempre que se entreabre uma janela. Dizer aos outros o que devem fazer (sem ser como resposta a um pedido expresso de opinião), em assuntos tão íntimos e privados, é invadir os seus jardins secretos, é desmanchar as construções mais pessoais, é querer controlar os outros nos territórios mais sagrados.

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