Estudo da Universidade de Coimbra revelou que crianças hiperactivas com défice de atenção apresentam défices neuropsicológicos

Agosto 6, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do Site Cienciapt.net de 27 de Julho de 2010. Download da tese de mestrado Aqui

Bateria de Avaliação Neuropsicológica de Coimbra, desenvolvida pela Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação, pode ser um complemento essencial ao diagnóstico da Perturbação de Hiperactividade com Défice de Atenção, facilitando uma compreensão e intervenção mais eficazes com vista à melhoria dos desempenhos escolares da criança.

Um estudo realizado pela psicóloga Cláudia Alfaiate, que foi a base da tese de Mestrado em Psicologia que apresentou à Faculdade de Psicologia e de Ciências da Educação da Universidade de Coimbra (FPCEUC), permitiu concluir que as crianças que apresentam sintomas de desatenção bem como sintomas de hiperactividade e impulsividade – Perturbação da Hiperactividade com Défice de Atenção de subtipo Combinado (PHDA-C) – têm associados a essa condição défices neuropsicológicos específicos, nomeadamente no que se refere a várias funções cognitivas como memória, funções executivas, atenção e linguagem. O estudo, que se insere na área de especialização em Psicologia do Desenvolvimento e que foi realizado sob orientação do Professor da FPCEUC Mário R. Simões, avaliou 30 crianças com PHDA-C recorrendo à Bateria de Avaliação Neuropsicológica de Coimbra (BANC), um conjunto de testes adaptados ou desenvolvidos pelo Serviço de Avaliação Psicológica da FPCEUC para o exame de crianças e adolescentes portugueses. Apesar do diagnóstico da PHDA-C ser sempre clínico, os testes da BANC permitem fazer um estudo mais objectivo e exaustivo de caracterização do funcionamento cognitivo das crianças e adolescentes. «Trata-se de uma ajuda essencial para perceber os pontos fracos e fortes da criança ao nível das funções cognitivas e, a partir da informação assim recolhida, definir estratégias de intervenção mais ajustadas ao perfil de desempenho de cada criança», explica Cláudia Alfaiate.
A investigadora concluiu ainda que, através da realização dos testes da BANC, será possível fazer um relatório individual do desempenho da criança, permitindo propor estratégias de intervenção na escola, orientadas para melhorar a aprendizagem da criança, mas também estratégias para poder ajudá-la a «estruturar o dia-a-dia, a modelar competências, a planificar e antecipar consequências e a aprender com o erro», exemplifica. Cláudia Alfaiate explica ainda que muitas crianças com PHDA «não são entendidas nas suas dificuldades pois, muitas vezes, estamos apenas focalizados nos seus comportamentos desajustados, enquanto nesta perturbação há muito mais do que um problema de comportamento», daí considerar ser relevante que pais e professores de crianças com PHDA-C se consciencializam da importância de uma avaliação cognitiva e neuropsicológica mais exaustiva, nomeadamente através dos testes da BANC.
Para a investigação de Cláudia Alfaiate, foram seleccionadas 30 crianças com PHDA-C observadas no Centro de Desenvolvimento da Criança Luís Borges do Hospital Pediátrico de Coimbra, entre os 6 a 9 anos, com nível de inteligência médio (examinado através do recurso a uma escala de inteligência), sem retenções na escola e sem dificuldades específicas de aprendizagem, de modo a excluir os casos de dificuldades cognitivas de base ou outras perturbações associadas. Foi ainda escolhido um grupo de controlo, igualmente constituído por 30 crianças, da mesma idade, género, ano de escolaridade, área geográfica e área de residência. O grupo com PHDA-C obteve resultados inferiores ao grupo de controlo nas diferentes funções neuropsicológicas examinadas, nomeadamente ao nível da memória (auditiva/verbal e, de forma mais consistente, na memória visuo-espacial), atenção (dividida e sustentada), funções executivas (planificação) e linguagem (expressiva). Esta investigação corresponde a um dos vários estudos já realizados no âmbito da validação da BANC para a população portuguesa que inclui igualmente trabalhos realizados junto de outros grupos de crianças e adolescentes observados em contextos clínicos e educativos.  A PHDA é a perturbação comportamental mais frequente na criança. Apesar das taxas de prevalência tenderem a variar de investigação para investigação, é geralmente aceite que afectará entre 3 a 7% de todas as crianças em idade escolar, sendo mais frequente nos rapazes. A PHDA tem repercussões no desenvolvimento, capacidade de aprendizagem e ajustamento social da criança e os sintomas podem persistir na idade adulta, pelo que a sua identificação precoce, o diagnóstico preciso e uma intervenção multi-disciplinar são essenciais.

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