Sempre conectados ou dependentes?

Julho 21, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Crónica de Daniel Sampaio no jornal Público de 11 de Julho de 2010.

As crianças e jovens de hoje passam por longos períodos frente ao ecrã de computador. Pais e educadores preocupam-se com esta forma de entretenimento – nalguns casos semelhante a uma dependência – porque os adolescentes aproveitam todo o tempo o tempo possível para jogar na internet e têm muita dificuldade em aceitar interrupções ou acatar restrições de utilização propostas pelos progenitores: reagem então com agressividade e depressa voltam ao mesmo.

Conheço adolescentes que chegam a estar dez horas por dia em jogos online, com prejuízo da frequência das aulas e da preparação dos testes. As refeições são feitas em tabuleiro frente ao computador, em regra com alimentos de alto teor calórico e de facil ingestãp, pois interessa ter pelo menos uma mão livre para continuar a jogar. Uma família queixou-se na consulta das horas em que o filho estava preso ao ecrã, aparecendo de vez em quando para refeições rápidas, ingeridas à pressa sem falar, com os olhos vermelhos a piscar; noutro caso foram os avós que se quixavam da dificuldade em adormecer, porque as noites de verão obrigavam as janelas abertas que deixavam ouvir os gritos e palavrões de dois vizinhos adolescentes, enquanto “matavam” toda a gente com tidos virtuais: “tanto tiro, tanto tiro”, comentava a avó.

São várias as causas deste comportamento juvenil. Nos últimos trinta anos existiu um excesso de preocupação com a segurança das crianças, com receios mantidos de que na rua com a consequência de sua perda de iniciativa e de independência. Os mais novos perderam não sói a liberdade de deambular e de explorar o meio ambiente, como também não adquiriram capacidades de desembaraço perante situações mais dificeis que ocorriam no exterior. Os pais trabalham muitas horas e somam aos seus medos algum descanso, com a ideia de que se os filhos estiverem em casa podem repousar mais e vigiar mais de perto.

As consequências são já conhecidas: sedentarismo e obesidade nas crianças, diminuição da interacção entre gerações (todos em frente a ecrãs), menor responsabilidade por parte dos mais novos, dificuldade de cumprimento regras de convívio social (de que a falta de correcto comportamento á emsa por parte das crianças é apenas um eemplo). Estudos mais recentes levantam a hipótese de que alguns casos de intimidação e provocação nas escolas (o tão falado bullying) possam estar relacionados com a falta de empatia e de competências sociais por parte dos seus actores, habituados a uma permanente vida virtual.

Precisamos de mudar muito. Os pais devem cuidar das raízes da árvore familiar, promovendo mais interacção na família, mas não podem esquecer que também devem treinar os filhjos a utilizar as asas a voarem sozinhos. Assim, devem ganhar tempo para discutir regras de segurança no exterior,, por exemplo através da exploração conjunta dos percursos; necessitam combinar regras de utilização do computador, não permitindo excesso de uso; e ganhariam em promover, desde muito cedo, actividades no exterior, onde o desporto seria sempr uma opção importante.

Ter actividades conjuntas na família, sobretudo com crianças pequenas, vale mais do que dezenas de cursos ou de actividades extra-escolares, em que os pais ficam exaustos e onde os filhos pouco se divertem. claro que é bom que as crianças tenham actividades estruturadas fora da escola (quando o roçamento familiar o permite…) mas isso não deve constituir um substituto para a vida familiar nem impedir a livre exploração da vida no exterior.

Considerar que a internet é o novo diabo do séc. XXI – como já ouço a alguns pais – não é o caminho. Já pensaram se não é mais vantajoso ensinar a alimentação saudável, promover a actividade física e contribuir para a exploração cuidadosa da praceta ao pé de casa?

XI Congresso Nacional de Pediatria

Julho 21, 2010 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
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A Sociedade Portuguesa de Pediatria vai organizar o 11º Congresso Nacional de Pediatria, que irá decorrer no Funchal nos dias 6, 7 e 8 de Outubro de 2010. Mais informações Aqui

Matilde Rosa Araújo – Autobiografia

Julho 21, 2010 às 6:00 am | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Matilde Rosa Araújo, sócia fundadora do Instituto de Apoio à Criança e Directora do Boletim do IAC. Nasceu em Lisboa em 1921, licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do Ensino Técnico Profissional e do primeiro Curso de Literatura para a Infância, que teve lugar na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Autora de livros de contos e poesia adultos e crianças, a sua temática centra-se em torno de três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto.  Dedicou-se, ao longo da sua vida, aos problemas da criança e à defesa dos seus direitos. O Jornal de letras, Artes e Ideias republicou no dia 7 de Julho de 2010 a sua autobiografia saída na edição do JL 928, de 26 de Abril de 2006.

Falar da minha vida, no seu percurso até esta idade octogenária, é difícil. Mais difícil ainda para uma memória sempre abalada, ida, de quem desde criança viveu “fora do contexto”. Este “fora do contexto” não por excepcionalidade (afirmo-o sem falsa modéstia), mas porque sempre me encontrei longe e perto. Este longe e perto não nega o tesouro real, para além da família, que constituíram os amigos. Amigos de presença tão viva, embora tantos já ausentados pela lei de um “fim” que muito dói e não sei entender.

Nasci numa quinta em Benfica, no meio de árvores, flores, fontes, animais natureza viva que me seduzia. Perto de Jardim Zoológico. De noite, ouvia o ressonar ou o gemer dorido dos leões, dos tigres, do elefante e de outros animais que não identifico: eram “vozes” de animais presos. Vozes de grades. E gritos de aves estranhas. Ficava acordada para os ouvir, não sei porquê. E doíam-me. Não seria já o “gosto amargo” de sofrer (que não tenho) mas a inconsciente busca de um mundo próximo e livre que não entendia.

Não frequentei nenhuma escola. Quantas vezes subi para o telhado de casas onde vivia, para olhar os meninos que iam para a escola? Talvez, por isso, a infância encontrou-me quando comecei a ensinar. Encontrou-me e continuou comigo no deslumbrado acontecer das aulas, deslumbrado e receoso de não saber comunicar. E fui aprendendo, tentando aprender o segredo da infância, da juventude, descoberta viva todos os dias. O curso de Letras encaminhara-me para esta profissão. Tive sorte. E o que aconteceu? Foi tanto o acontecido.

Em Lisboa, e por outras terras, fui enraizando o poder de um sonho Os Direitos da Criança.

E, comungando na profissão e à margem dela, encontrei amigos que não posso nem sei esquecer.

Amigos simples e grandes cuja ternura ainda me embala. Desde a Faculdade de Letras da velha Academia das Ciências, professores, colegas que me deram a fortuna do seu ser, do seu contar.

Depois, na vertente das Letras, lembro a felicidade que constituiu para mim fazer parte da Sociedade Portuguesa de Escritores. Felicidade que findou (findou?) numa amarga, injusta destruição da sua sede. Falar de lágrimas nesta altura é pouco: a própria revolta seca-as de imediato.

Vivi décadas do século passado, como se calcula. E, nesse século, pude olhar dois momentos da História que me deslumbraram.

Uma alegria que Beethoven na sua ode nos entregara para sempre, maravilha de sons que aconteceu. Pungente. Viva. Um desses momentos foi o fim da Segunda Guerra Mundial. A paz no Mundo na qual acreditei para sempre. Soava a Alegria como água pura da nascente. Branca luminosa.

Outro momento foi o 25 de Abril. Depois de um tempo de silêncio, de silêncios, com vozes heróicas ou caladas, nós íamos acreditar num país de fraternidade, sem arma de agressão. País sonhado há tanto. De justiça e paz. E hoje? “Pelo sonho é que vamos”, como disse Sebastião da Gama”. Continuamos.

De mim, que mais posso falar? Escrevi. Escrevo ainda. Sei que é bom viver, apesar das dores, das inibições físicas. Mas como é bom amar, ter amado. Em ter a infância no coração. Com a infância no coração e tanta memória com ela encontrada. Às vezes, acontecimentos aparentemente tão simples mas que apontam da infância um historial amargo. Simples como uma boneca de trapos, trapos sujos pelo tempo magoado. Olhos de retrós que olham para mim num doce olhar.

Eu lembro a “história” desta boneca, que não é só minha, como se contasse o segredo escondido de toda a criança mal amada. Fui, um dia, a uma escola. Qual? Já nem me lembro do seu nome, da terra a que pertencia. Mas não esqueci nunca, nunca poderei esquecer, a prenda rara que foi para mim esta boneca. Parece-me, desde que a recebi, que ela tem voz, que me dá um imenso recado. Enfim, como já disse, visitar uma escola. Qual? Onde? Como sempre, rodearam-me os alunos com a sua ternura, as suas interrogações, a graça tão única de quem é jovem em querer descobrir o mundo. Entre esses jovens surpreendeu-me o olhar de uma menina, olhar triste e destroçado de infância perdida. E a menina olhava, eu percebia sem o saber nada do seu mundo para além da mágoa do seu olhar.

No meio daqueles alunos que perguntavam, ficaram muito sérios ou riam, me davam a força da ternura, não me apercebi da ausência daquela menina triste. Estava no momento de me despedir, agradecer a todos, professores e alunos, tanto amor que me fora dado, quando a menina triste que se ausentara chegou junto de mim. Com uma boneca de trapos, envelhecida pelo uso, nos seus braços magrinhos.

Tome. É para si. Eu fui buscá-la.

Não nomeou onde fora. Mas onde chegou até mim.

Não podia aceitar.

A boneca é tua. É a tua boneca! Aceite. Eu quero que fique consigo.

Mas não. Os olhos da menina, determinados, imploravam. Olhos maravilhosos e húmidos de uma fome que não é de pão. Compreendi. Os professores da escola ajudaram-me a compreender aquela dádiva única daquela menina mal amada. Toda a criança também é uma dádiva única. Aquela boneca não lhe pertencia. Não tinha o direito de brincar numa casa sem amor. Menina que não era amada podia guardar a sua boneca de trapos? Boneca tão suja e tão linda! E não me lembro do nome da menina “sua mãe”. Por contraste a boneca seria a “cigarreira breve” de Fernando Pessoa. Outra forma de guerra. Não me lembro do nome da menina mas sei o seu recado. Esta boneca “aconteceu” numa visita a uma escola.

Tenho ainda a felicidade de visitar escolas, bibliotecas generosos convites dos seus responsáveis.

Convites que me trazem o grande prazer da convivência, do afecto dos professores, bibliotecários, auxiliares de ensino, da juventude. Sem esquecer a infância que por vezes me cabe como uma graça plena. E, com estas visitas, lembro o passado do livro infanto-juvenil, o respeito renascido por esta literatura até então quase ignorada, adormecida em silenciosos armários escolares. E lembro, com grato respeito, a importância que tiveram para tal literatura as carrinhas, bibliotecas ambulantes, da Fundação Calouste Gulbenkian. Carrinhas que corriam o país e levavam a boa nova do livro que todos podiam ler. As crianças, os jovens. E os adultos rompendo a morna ileteracia também. Hoje, nessa esteira, temos bibliotecas que são o lar vivo de uma literatura tanto tempo ignorada apesar de lhe caberem cultores, raros embora, de grande mérito literário e pedagógico.

Nas décadas que vivi, pude assistir a esta dignificação das letras tão naturalmente ignoradas.

E como a história, a “estória”, está tão presente no coração dos homens! O reconto oral é um património riquíssimo de entendimento da vida, das suas realidades, da sua poesia. Esta oralidade está viva, acontece nas próprias bibliotecas sem livros adormecidos. Sei, como não saber?, que os meios audiovisuais são fortes competidores da imprensa escrita. Mas sei, também, que tal imprensa não pode morrer: os livros, os jornais (da escola e não só) têm uma força real, o segredo claro de um diálogo silencioso e livre com o leitor. Diálogo que espera, permanece.

Cheguei até aqui com a voz da memória a dizer-me tanto. Há anos (do tal século passado.) pude editar três volumes que contêm a recolha de textos (poesia e prosa) de escritores portugueses. Nesses textos de autores de diferentes épocas, textos “para adultos”, pude encontrar em beleza em verdade a presença da infância. Da própria infância e da infância com eles convivente.

A um desses volumes dei o título de Estrada Fascinante. No seu prefácio acabo por dizer: “Alguma paixão reconheço nestas folhas, reconheço-a mas não a enjeito. Para mim, abriu-se uma “estrada fascinante” e só lamento os pés menos firmes de quem foi, apesar de tudo, deslumbrada caminheira”. Estrada nunca demais percorrida.


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