Famílias com filhos são mais atingidas pela pobreza. E vai piorar

Julho 20, 2010 às 9:05 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do jornal  i de 16 de Julho de 2010.

Ter filhos faz toda a diferença. As famílias com crianças a cargo são muito mais atingidas pela pobreza do que as que não têm prole, mostra um estudo ontem publicado pelo Instituto Nacional de Estatística (INE) que analisou os rendimentos de 2008.

Por outro lado, a taxa de pobreza geral nacional recuou para 17,9% do total. Vários observadores dizem que tudo isto vai piorar pois o inquérito do INE ainda não conta com a recessão de 2009, nem com as sombras recentes que voltaram a pairar sobre a economia e o mercado de trabalho. A desigualdade extrema também está a aumentar.

Desde 1995, pelo menos, que a disparidade entre a pobreza das famílias com filhos e as outras não era tão elevada, mostra o estudo (ver gráfico). Os agregados com filhos, sobretudo os que têm dois ou mais, estão a ser cada vez mais fustigados pelo fenómeno da pobreza. Ser pobre, diz o INE, é quando um adulto residente no país tem de viver com 4969 euros por ano, cerca de 414 euros por mês.

Já se sabia que com filhos tudo pode ficar mais difícil. Os encargos são maiores. Mas nunca nos últimos 14 anos a penalização foi tão grande como agora. Isso mesmo contamina a taxa de natalidade que está cada vez mais baixa. De acordo com o INE, em 2009 nasceram 99,5 mil bebés, um mínimo de muitos anos e a taxa de natalidade (crianças nascidas por cem habitantes) caiu para 9,4. Por isso, quem tem filhos fá-lo cada vez mais tarde. Também aqui a tendência é para protelar essa decisão.

As estimativas mais detalhadas do INE mostram, por exemplo, que as famílias que decidem ter apenas uma criança até registam um retrocesso no indicador da pobreza. Mas, à medida que a prole aumenta, a situação torna-se mais delicada e o risco de pobreza sobe de forma inequívoca: sobe uma décima (para 20,7% do total no conjunto dos agregados com um casal e duas crianças e aumenta dramaticamente (de 31,9% para 42,8% do total) no caso dos casais com três crianças ou mais.

Ontem, na Assembleia da República, o primeiro-ministro, José Sócrates, congratulou-se pelo facto de, no que respeita à pobreza e às desigualdades, os números serem hoje os menores desde 1995. Mas esse será um facto extraordinário, tendo em conta a quebra prevista do rendimento disponível e o agravamento estrutural do desemprego.

“Pelo que sei e tenho visto, não tenho a mínima dúvida que os números que levarem em conta os rendimentos deste ano e do próximo vão mostrar um sério agravamento da situação, seja na desigualdade, seja na incidência da pobreza”, lamenta o presidente da Assistência Médica Internacional (AMI), Fernando Nobre. “Em 2009, a resposta global da nossa rede de equipamentos sociais aumentou 20%. No primeiro semestre deste ano, o aumento homólogo já vai em 30%”, concretiza. “Quem tem filhos está mais exposto porque as despesas são maiores. Com uma economia estagnada e com o desemprego em 10% ou mais, tudo isto se agrava”, diz o médico.

“São dados relativos a 2008, estamos com ano e meio de atraso e eu gostava de ver dados que fossem actuais porque a grande incidência do desemprego foi nos últimos meses, no último meio ano”, constata Isabel Jonet, presidente do Banco Alimentar, em declarações à agência Lusa. Eugénio Fonseca, da Cáritas Portugal diz à mesma agência que “estes dados não reflectem os impactos actuais da crise, que se agudizou muito em 2009” e fala de uma tendência de agravamento em 2010.

A desigualdade entre os 20% mais ricos e os 20% mais pobres diminuiu, mas a desigualdade extrema (10% mais ricos versus 10% mais pobres) agravou-se, mostra o INE.

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