O adeus à Fada Matilde

Julho 6, 2010 às 1:24 pm | Publicado em O IAC na comunicação social | Deixe um comentário
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Matilde Rosa Araújo, morreu esta madrugada na sua casa, aos 89 anos, sócia fundadora do Instituto de Apoio à Criança e Directora do Boletim do IAC. Nasceu em Lisboa em 1921, licenciou-se em Filologia Românica pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Foi professora do Ensino Técnico Profissional e do primeiro Curso de Literatura para a Infância, que teve lugar na Escola do Magistério Primário de Lisboa. Autora de livros de contos e poesia adultos e crianças, a sua temática centra-se em torno de três grandes eixos de orientação: a infância dourada, a infância agredida e a infância como projecto.  Dedicou-se, ao longo da sua vida, aos problemas da criança e à defesa dos seus direitos. Foi galardoada com os seguintes prémios de Literatura para a Infância:

Grande Prémio de Literatura para Criança da Fundação Calouste Gulbenkian ex-aequo com Ricardo Alberty, em 1980; Prémio atribuído pela primeira vez, para o melhor livro estrangeiro (novela O Palhaço Verde), pela associação Paulista de Críticos de Arte de São Paulo, Brasil, em 1991;  Prémio para o melhor livro para a Infância publicado no biénio 1994-1995, pelo livro de poemas Fadas Verdes, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 1996.

O corpo será velado hoje na sede da Sociedade Portuguesa de Autores, em Lisboa.

Teve o IAC o privilégio de ser assistido na sua concepção, nascimento e crescimento por um SÁBIO e uma FADA. Foram eles, cujos saberes e dizeres se congregaram ao traçar o caminho da utopia que queremos continuar a percorrer. Refiro-me a João dos Santos quando declara que o “segredo do homem é a própria infância” e a Matilde Rosa Araújo quando desvenda a seriedade poética e dramática desses segredos da “infância dourada, infância agredida ou infância como projecto.” (…)


QUEM É A FADA MATILDE?

É uma entidade feminina, com características simultaneamente humanas e divinas e que se desloca entre o real de uns e o imaginário de outros e segue itinerários misteriosos que, umas vezes, permitem conhecer a miséria, o sofrimento e outras levam ao encontro com a beleza, a alegria e o maravilhoso. Se, a sua presença é facilmente associada à suavidade, à ternura e à delicadeza dos seus gestos e da sua figura, a força das suas palavras, a intencionalidade da sua obra e o exemplo de generosidade da sua vida revelam uma mulher de grande sensibilidade, determinada nas suas convicções, profundamente consciente da sua responsabilidade poética e social sempre pronta “… … a lutar com armas de amor pelos Direitos da Criança … a tornar o presente autêntica cons trução do futuro…”. Para além do encanto pessoal com que nos fascina e do espírito de humor subtil, com que às vezes nos surpreende, a Fada Matilde tem instrumentos mágicos, é com eles que procura proteger os mais indefesos e culpabilizar os que se esquecem do sofrimento alheio, sobretudo do sofrimento das Crianças. Como instrumentos mágicos a fada Matilde usa o AMOR e a PALAVRA e sabe utilizá-los de uma forma muito especial a que se chama “Poesia”, pois além de mulher ela é escritora e gosta de usar as palavras em defesa do “sagrado direito de viver”. Matilde tem percorrido o caminho desta utopia que é o IAC, ao longo de trinta anos, tempo suficiente para reconhecer a importância da sua presença. Podemos dizer que o seu exemplo tem ajudado a definir o “estilo” discreto, compreensivo e tolerante com que nos identificamos, mas é a sua obra que nos ensina a procurar o segredo oculto de cada homem e a encontrar o mistério redentor de todas as infâncias. Na vida e na obra de Matilde Rosa Araújo estabelece-se permanentemente um diálogo entre a realidade de cada criança e o imaginário de cada adulto, que dela se aproxima ou afasta, no balouçar das suas próprias memórias, no vai e vem das suas experiências de vida, no assumir da sua humanidade. Ela sabe, como ninguém, realçar de modo poético e realista a infância mais ou menos escondida de cada adulto e a expectativa de ser homem que existe em cada criança. (…)

Muito obrigada. Bem-haja grande fada Matilde, sem si a imagem do IAC seria muito, muito mas muito mais pobre. Obrigada. ”

Excertos da Comunicação proferida por Natália Pais no dia 19 de Abril de 2007 no encontro “Pela defesa dos direitos da criança – Novas realidades, novos interesses, novos desafios”. Comunicação publicada na Separata n.º 24 do Boletim do IAC n.º 84. Ver texto completo Aqui


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