“Educar sem medo” por Daniel Sampaio

Junho 24, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , , , ,

Quem o diz é o psiquiatra Daniel Sampaio:

As crianças de hoje são educadas com muitos medos. Os receios dos pais e educadores manifestam-se nos diversos contextos do quotidiano infantil e são determinados por uma cultura que privilegia o controlo e a supervisão constantes.

A vigilância parental é agora muito maior do que nos anos 1970, ao contrário do que se divulga: a maioria dos pais conhece bem a vida dos filhos e ocupa grande parte dos seus tempos livres em actividades com as crianças, desde o apoio escolar a práticas culturais e desportivas. Quando não podem estar presentes, os encarregados de educação delegam nas escolas a guarda dos mais novos e os estabelecimentos de ensino, por sua vez, também esgotam muitos recursos na vigilância dos alunos.

É certo que viver em sociedade comporta riscos e uma criança tem de os conhecer, porque é ingénuo pensar que só vai encontrar pessoas que a respeitem como ser mais vulnerável. O problema é saber se a excessiva protecção não aumenta as fragilidades de muitas crianças e as impede de um percurso para a autonomia.

Em muitas cidades, as crianças não brincam na rua nem se deslocam a pé para as aulas, mesmo que a distância seja mínima. Em muitas escolas, é proibido jogar à bola ou brincar “à apanhada”, pelo receio (sem confirmação credível) de que estas brincadeiras se possam tornar violentas. Qualquer interacção um pouco mais agressiva é depressa reprimida pelos vigilantes e identificada como bullying.

A grande mudança do final do século XX, a Internet, é referida muitas vezes como fonte de cyberbullying ou de outros riscos significativos. Nas famílias, os pais receiam os jogos ao ar livre ou o contacto com adultos estranhos e educam os filhos numa perspectiva de excessiva contenção perante situações não conhecidas. Nas escolas, os vigilantes que reprimem o jogo da bola e as correrias descansam sossegados se as crianças se sentam a brincar com o gameboy.

O medo actual do contacto com estranhos devido ao perigo real da pedofilia teve como consequência o receio do adulto normal em poder exprimir um afecto saudável para com os mais novos, ou até a falta de ajuda perante uma criança em dificuldades, pelo pavor de suspeita de envolvimento em comportamentos doentios.

A verdade é que estamos a privar os mais novos de aprendizagens fundamentais. A interacção próxima (mesmo que um pouco agressiva) com os amigos permite aperfeiçoar o modo de lidar com situações difíceis, conhecer o corpo e a linguagem corporal, conseguir uma socialização com os pares num mundo juvenil ainda não totalmente controlado pelos adultos.

A maioria das crianças e jovens tem enorme satisfação na sua vida online, porque a Internet se tornou num território não só essencial para fazer amigos, mas também um espaço decisivo para a criatividade e para a inovação.

A maior parte das agressões pedófilas é feita por abusadores que vivem nos círculos familiares, pessoas que não são sujeitas a qualquer controlo e cuja presença pode até ser incentivada; e fechar as crianças em casa contribui para, mais uma vez, não as treinar para as necessárias respostas aos riscos do exterior.

É evidente que educar implica vigiar e traçar limites. Ninguém pode defender que uma criança seja deixada à solta num mundo de dificuldades como o actual. Mas há cada vez mais provas de que fechá-las numa redoma não é a solução: priva-nos da sua alegria e criatividade e pode afectar os seus níveis de confiança e de sucesso futuro.


Nota: recomendo a leitura do livro de Tim Gill, Sem Medo: Crescer Numa Sociedade com Aversão ao Risco (Principia, 2010), cuja publicação a Fundação Gulbenkian promoveu em boa hora e que serviu de inspiração a esta crónica.

Pública de 20 de Junho de 2010

Formação: As Crianças e a Dieta Alimentar Saudável

Junho 24, 2010 às 1:00 pm | Publicado em Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , ,

Uma iniciativa da Associação de Professores de Sintra.

Stop Sex Trafficking of Children & Young People

Junho 24, 2010 às 6:00 am | Publicado em A criança na comunicação social, Campanhas em Defesa dos Direitos da Criança, Divulgação | Deixe um comentário
Etiquetas: , , , ,

Campanha da ECPAT – End Child Prostitution, Child Pornography and Trafficking in Children for Sexual Purposes e da Body Shop contra o tráfico e exploração sexual de crianças e jovens. Pode aderir à campanha Aqui . Sobre a campanha Aqui . Sobre a situação em Portugal Aqui


Entries e comentários feeds.