As crianças estão reféns do ecrã

Junho 9, 2010 às 1:00 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Artigo do jornal Expresso de 31 de Maio de 2010.

Por Christiana Martins

Fechadas entre quatro paredes, é em casa que as crianças se sentem melhor e mais seguras. Um estudo mostra como a televisão lhes está a roubar a cultura do espaço público

As crianças não têm tempo próprio e falta-lhes o espaço que deve ser de todos: o espaço público”, afirma Duarte Moreno, autor de uma investigação sobre a relação das crianças com o espaço. “A brincadeira da rua está extinta. Restam os ecrãs de faz de conta, no quarto ou na sala, e esta cultura do ecrã avassala o quotidiano da infância, gerando uma serenidade pouco genuína”, alerta. Meninas entre os 8 e os 9 anos, com mais meios económicos, que preferem ficar em casa compõem um retrato que ajuda a responder, na forma de perfil, à pergunta fundamental da investigação: “Onde te sentes melhor?”. Professor de Educação Física, Duarte Moreno concluiu recentemente na Faculdade de Motricidade Humana a dissertação de doutoramento que aborda esta questão. A pesquisa envolveu 163 crianças, moradoras em Matosinhos, de ambos os sexos e diferentes origens socioeconómicas, entre os 8 e os 9 anos e entre os 11 e os 12 anos. As abordagens foram múltiplas: entrevistas, diários de actividade produzidos pelos miúdos, máquinas fotográficas utilizadas pelas crianças e questionários respondidos pelos pais.

Ausentes do exterior

“As crianças não vivem corporalmente o espaço que as rodeia”, afirma Duarte Moreno. O investigador diz ainda que, “infelizmente, as crianças e os adolescentes não encontram oportunidades suficientes para atingir um nível óptimo de actividade física habitual na sua vida quotidiana”. Sublinhando consequências como a obesidade infantil.

A raiz desta situação parece estar na escassa utilização do espaço público. “No quarto, as crianças adquirem uma soberania precoce sobre a gestão dos seus tempos, regulando as horas da navegação na Internet ou o uso de jogos interditos, submetendo os hábitos de sono a alterações inexplicáveis, com reflexo no dia seguinte, quer nas aprendizagens escolares, quer na qualidade das relações interpessoais”, refere.

“É a casa o lugar onde a maioria das crianças se sente melhor (69%).” É assim que Duarte Moreno introduz a questão sobre os espaços ocupados pela infância. Apenas 10% das crianças que participaram no estudo preferem o parque ou o jardim e 7% a escola. São, sobretudo, as mais novas que escolhem o ambiente domiciliar (40%). São também as que fazem parte de meios socioeconómicos mais favorecidos que preferem ficar em casa. Mas “os elevados níveis de ligação ‘à casa’ poderão significar limites de adaptação ao meio envolvente e maior insegurança aos locais urbanos”.

Pela voz das crianças

A linguagem infantil que surge no trabalho revela como as crianças abordam o seu próprio contexto. “O interior da casa é o lugar onde estou mais seguro e protegido”, “Estou à vontade”, “É confortável” e “Sossegada” são pedaços dos pensamentos infantis ouvidos por Duarte Moreno. Mas há mais: “Posso brincar”, “Tenho lá as minhas coisas”, “Posso ver televisão”, “Posso comer e beber”.

“A vida das crianças tornou-se mais centrada no domicílio. Anteriormente, o espaço da casa era dominado pelos adultos (donas de casa), mas hoje a situação é inversa: o espaço privado da casa alterou-se de espaço adulto para espaço de criança”, explica o autor. No estudo, há três razões fundamentais para que as crianças não explorem os espaços próximos de onde vivem. Em primeiro lugar, a cidade não está preparada para estes moradores: “O planeamento urbano não se ajusta aos interesses das crianças como população muito específica.” As outras conclusões referem que “o automóvel tomou conta do espaço urbano, criando constrangimentos de circulação e de jogo livre” e que “a percepção dos medos sociais, como assaltos, roubos, violações ou raptos, faz com que metade das crianças ouvidas no estudo refiram ter medos em relação à cidade”. Mas, quando inquiridas sobre se já lhes aconteceu algo de concreto, a grande maioria (77%) responde que não. A casa aparece como “o espaço preferido da cidade, o local onde a maioria das crianças se sente melhor”. Para elas, “a casa é o lugar da segurança e do conforto. É lá que está a família e os brinquedos que as ocupam: os diversos tipos de suportes electrónicos que surgem como novidades infindáveis”.

Televisão no quarto

Todas as crianças ouvidas no estudo referiram ter televisão. “É um equipamento de presença inequívoca”, afirma Duarte Moreno. Mas 72% dos inquiridos disseram também ter computador. E, segundo o estudo, “a percentagem mais elevada destas crianças (37%) afirma ver ou interagir em suportes electrónicos (televisão, computador e videogravadores) durante mais de três horas por dia”.

A situação torna-se mais complexa quando 70% das crianças que participaram na pesquisa dizem ter televisão no quarto de dormir. Destas, 66% dizem adormecer a ver televisão. A maior parte (37%) integra meios socioeconómicos mais baixos. “Adormeço a ver e depois acordo de noite e desligo”, afirma um rapaz de 9 anos. Uma menina com a mesma idade diz praticamente o mesmo: “À noite não consigo adormecer sem ver televisão.” O estudo alerta, contudo, que as crianças tendem a deitar-se mais tarde com a presença de televisão no quarto e, como levantam-se sensivelmente à mesma hora, tal reflecte-se na média de sono diário e, por sua vez, no equilíbrio diurno, na aprendizagem escolar, nas atitudes de interacção com as outras pessoas. É importante sublinhar, por exemplo que, “para muitas crianças, o recreio é a única oportunidade para interagir com os seus pares”. Além disso, cerca de 64% das crianças ouvidas nesta pesquisa dizem possuir telemóvel. “Cada vez mais apropriado pelas crianças e induzido pelos adultos, o telemóvel intensifica o controlo parental, esvaindo-se a autonomia e a liberdade da criança”, conclui Duarte Moreno.

Publicado na Revista Única de 29 de Maio de 2010

Pode consultar a tese de Duarte Moreno Aqui

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