Hiperactividade pode ser sinónimo de depressão

Junho 3, 2010 às 9:00 pm | Publicado em A criança na comunicação social | Deixe um comentário
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Artigo do Diário de Notícias de 18 de Abril de 2010.

por ANA BELA FERREIRA

As crianças deprimidas apresentam sintomas diferentes dos adultos: irritabilidade, falta de concentração e hiperactividade são comuns. A doença é por isso subdiagnosticada

Uma criança demasiado irrequieta, com dificuldade em manter-se concentrada numa tarefa é facilmente apontada como hiperactiva. Mas a persistência destes sintomas podem também ser sinónimo de depressão. Uma doença ainda pouco diagnosticada em crianças portuguesas, mas que os médicos dizem estar a aumentar. Os números internacionais apontam para que 2% das crianças até aos 12 anos e 8% dos adolescentes tenham episódios depressivos. Números que podem espelhar a realidade nacional. Mas a psicóloga Tatiana Pereira alerta para o facto de que possam haver mais crianças com esta doença, já que um estudo realizado em Espanha revela que 12% das crianças até aos 12 anos têm ou tiveram esta doença. “A depressão na infância ainda não está categorizada e não é aceite por todos os clínicos”, aponta Tatiana Pereira. Isto porque “esta patologia tem características muito diferentes nos adultos e nas crianças”, acrescenta a psicóloga que trabalha numa escola. Assim, entre os quatro e os 13 anos, “mais do que a tristeza, o que se nota é alguma irritabilidade, alterações no sono, no apetite e dificuldades de concentração”, explica a pedopsiquiatra Margarida Crujo. A médica interna no Hospital Dona Estefânia, em Lisboa, sublinha, por isso, que no caso de sintomas como a irritabilidade representarem uma depressão, estes devem ser tratados nesse contexto e não isoladamente. Também o excesso ou falta de energia, a perda ou aumento de peso e a agressividade são indicadores de depressão infantil, lembra Tatiana Pereira. Além das crianças e adolescentes, esta é uma perturbação que pode afectar também bebés a partir dos seis meses. Nos bebés pode ser mais difícil identificar um comportamento depressivo. No entanto, o pediatra Gomes Pedro considera que basta o médico estar atento a sinais de alheamento, choro, recusa em comer e alterações no sono. “Se o bebé não estiver bem na sua pele, isso nota-se”, defende o clínico. Se os sintomas são diferentes, o tratamento também é diferente para esta população mais nova. Os antidepressivos são quase excluídos e a terapia e apoio psicológico assumem o papel principal para ultrapassar a depressão. “A cura desta doença passa por um bom mediador, que não se centre apenas na criança, mas também na família”, justifica Tatiana Pereira. A mesma opinião é defendida pela pedopsiquiatra Margarida Crujo. “Só em casos mais graves, em que há riscos grandes para a criança e família e que precisam de uma intervenção mais rápida, é que se usam medicamentos”, acrescenta. Mesmo assim, isso só se aplica a adolescentes. Por outro lado, não usar antidepressivos ajuda a “mostrar à criança que ela tem força para ultrapassar estas situações sem uso de medicamentos”, refere Tatiana Pereira. “O sentimento clínico que temos é que a depressão infantil está a aumentar”, admite o pediatra Gomes Pedro. Um fenómeno que se deve “às situações de stress, de desemprego, trabalho precário, que os pais enfrentam e que as crianças absorvem”, aponta o médico. No mesmo sentido, Tatiana Pereira admite que “o contexto leva a que haja mais depressão”. Mas os especialistas alertam ainda para o facto de uma depressão não ter apenas uma causa directa. Existindo, contudo, factores agudos que podem levar a estados depressivos (ver caixa em baixo). Ainda que os factores exteriores e sociais desempenhem um papel importante no desenvolvimento de uma depressão, também a genética é importante. E é importante não só na predisposição para sofrer uma depressão mas também para determinar a sua cura. Mas, mesmo depois de curada, esta patologia pode deixar marcas. “Depois de uma depressão, a criança pode nunca ter uma auto–estima adequada, um baixo rendimento na escola ou alterações na sua personalidade”, esclarece Margarida Crujo. A pedopsiquiatra frisa ainda que uma depressão em idades precoces pode determinar outras doenças na idade adulta, bem como outros episódios depressivos ao longo da vida.

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