“Ninguém se suicida só por ser vítima de bullying”

Abril 13, 2010 às 10:00 pm | Publicado em Uncategorized | Deixe um comentário
Etiquetas: ,

Entrevista de Daniel Sampaio ao Jornal I no dia 10 de Abril de 2010.

Ler a entrevista na integra Aqui

Passando para a actualidade. Existe de facto bullying em Portugal?

Claro. Como sempre existiu. O bullying é uma violência caracterizada por comportamentos de humilhação e de provocação em relação ao aluno. Nos anos 60, estava no Liceu Pedro Nunes, em Lisboa, e havia bullying. Mas não se estudavam essas questões e não se valorizava. Havia a noção de que as pessoas tinham de se desenrascar. Lembro-me de um jovem homossexual que era vítima de humilhações sistemáticas na casa de banho e no pátio. Hoje, felizmente, acha-se que as pessoas frágeis devem ser protegidas. Porque violência sempre haverá na escola. Isso é uma utopia dos anos 60.

Mas não faz parte do crescimento aprender a lidar com as dificuldades?

É verdade.

Então qual é o limite?

Há uma diferença entre um comportamento que pode ser episodicamente violento – que até é saudável, porque é importante que as pessoas aprendam a desembaraçar-se – e um comportamento de humilhação e provocação sistemático.

Há quem defenda que superar situações de provocação pode fazer da vítima um adulto mais forte.

Isso tem a ver com o perfil da vítima. Há quem saiba reagir e quem se vitimize: pessoas depressivas, inseguras. Mas os agressores também precisam de ajuda. É errado pensar que o problema se resolve punindo os agressores.

Nos EUA, nove jovens estão a ser investigados no caso de uma adolescente que se suicidou-se por ser vítima de bullying.

Isso nunca é bem assim. A pessoa nunca se suicida só porque é vítima de bullying. Há múltiplas causas que num determinado momento se somam. Por exemplo, temos a escola de Fitares e o professor que se suicidou, vítima – escreveram indecentemente os seus colegas do “Público” – da turma do 9.oB. Não se pode escrever isto. Primeiro porque houve pessoas da turma do 9.oB que não tiveram nada a ver com isso. Depois, o professor – que de certeza que sofria muita pressão dos alunos, ao ponto de escrever isso no computador – era doente psiquiátrico, estava em depressão, tinha 50 e tal anos e vivia com os pais.

Ao longo destes 20 anos, a sua forma de olhar os adolescentes mudou?

Claro que mudou. Primeiro porque vou envelhecendo. Às vezes olham-me como um avozinho. Mas isso não faz mal. Quero estar de acordo com a minha idade. Nunca uso calão juvenil nem permito que o usem comigo.

Em “Vozes e Ruídos” defende que temos de usar a linguagem dos jovens e um capítulo chama-se “Bute Falar”.

Sim… Isso em 93. Já não uso esse tipo de linguagem. Em 94, quando escrevi “Inventem-se Novos Pais”, era importante dizer aos pais “oiçam os adolescentes”. Em 2010, os adolescentes já têm a sua voz. O essencial é dizer “atenção, os pais precisam de ajuda e estão inseguros”. Há situações preocupantes, em que os adolescentes comandam a vida familiar. Houve muita permissividade.

Quando deixa de haver espaço para negociação e é preciso ser autoritário?

Uma família não é uma estrutura democrática tradicional. Há um momento em que é preciso decidir, e quem decide é o adulto. É fundamental que decida sobretudo nas questões de saúde e de segurança. Se um pai sabe que o filho frequenta um grupo onde há drogas, qualquer tipo de droga, deve proibir de forma clara. O adolescente pode desobedecer, mas vai fazê-lo com a proibição dos pais na cabeça. O grande problema das famílias é que os jovens não sabem se estão a transgredir, porque não há regras.

Que tipo de adultos serão?

Isto traz consequências a nível da frustração e a nível moral. A educação deve ter uma dimensão de frustração, que é “tu não podes ter tudo quanto queres”. Qualquer aprendizagem exige esforço. Não se deve desistir à mínima coisa. Aprendi isso com os meus pais, que não admitiam que faltássemos à escola, a não ser que estivéssemos mesmo doentes. Era o nosso dever. E depois é importante a chamada educação para os valores: aquilo que eu pai e eu mãe achamos que é importante para ti nesta família.

A conduta dos pais é responsável pela conduta dos filhos?

Não. Os pais são determinantes, mas não são os únicos responsáveis. Devemos dizer às crianças e aos adolescentes que eles são responsáveis pelos próprios actos de acordo com a sua idade. Uma criança de um ano não pode decidir a sua vida, mas pode arrumar os brinquedos.

Há regras infalíveis para ser um bom pai ou uma boa mãe?

Há duas coisas. Primeira, falar com outros pais. “Como é que o meu vizinho que tem um filho adolescente resolveu a questão de a namorada dormir lá em casa?” Posso ter dificuldade em resolver questões de sexualidade, mas ser competente em questões de segurança. Então troco experiências. Depois, reconhecer aquilo que os meus pais e avós fizeram. A nossa identidade é feita da nossa genética. Por exemplo, o meu avô paterno, quando o meu pai teve uma má nota, achou que ele devia deixar de estudar e ir trabalhar. Houve um tio, que por acaso era padre, que achou que o meu pai devia continuar a estudar. O meu pai veio a ser um médico de algum destaque. Qual é a lição? Quando tenho uma dúvida com os meus filhos devo ouvir outras pessoas. A história da nossa família dá-nos pistas para as soluções que temos de encontrar para os problemas.

Fez isso com os seus filhos?

Fiz isso, mas devia ter feito mais. Só quando escrevi “A Razão dos Avós”, em 2008, percebi a verdadeira importância disso.

Teria mudado a sua forma de decidir?

Sim. Não lhe quero dar exemplos concretos dos meus filhos, mas houve tomei decisões dominado pelas minhas emoções e não por estratégias pensadas. Os pais devem ter contacto com as suas emoções, mas ser racionais. Quando não sabem o que fazer, podem pedir aos filhos que esperem dez minutos ou um dia. E vão falar com outros pais e pensar como resolveriam os pais e os avós uma dificuldade semelhante. Uma família isolada é uma família com problemas.

Tendemos a olhar para si como autor de livros, pessoa que não tem dúvidas.

Tenho imensas dúvidas. A comunicação na família é a coisa mais importante. A reflexão funciona. Muito mais do que ler um livro do Daniel Sampaio. Eu tive uma avó que foi muito importante para mim.

De que forma foi a sua avó importante?

Tinha uma grande suavidade na maneira de dizer as coisas. Nunca se zangava. Apontava-me caminhos, dando-me uma enorme liberdade. Eu com dez anos andava muito sozinho em Sintra e em Lisboa. Hoje já não é possível, porque os pais estão aterrorizados com a insegurança. Tenho imensa pena dos meninos que vêem a cidade pelos vidros dos carros dos pais, como os meus netos. A minha avó foi decisiva na minha formação. Mais que os meus pais. Vivi com ela três anos fundamentais da minha vida, dos dez aos 13 anos.

De facto as crianças não podem andar sozinhas ou os pais exageram?

Essa é a pergunta mais difícil que fez até agora. As cidades não são seguras. Na altura eram. Mas acho que os pais exageram. Têm uma paranóia securitária, estão sempre a pensar em coisas horríveis que podem acontecer e não deixam as crianças com dez e 11 anos atravessar a rua. E depois, extraordinariamente, aos 15 anos deixam-nos sair à noite até às seis da manhã. Quer dizer, não as prepararam para vencer as dificuldades do dia-a-dia. Depois, de repente, entram na adolescência, consomem álcool e drogas e não há nenhum controlo. Tenho um exemplo de um rapaz que sigo. Trabalho ao pé da escola secundária onde anda. Fiquei de lhe arranjar uns apontamentos. E esse menino, que tem 15 anos e sai à noite para as discotecas, não atravessou duas ruas para os ir buscar a minha casa. O pai teve de largar o emprego para ir a minha casa buscá-los. Os pais não têm firmeza para dizer “tu não deves sair antes dos 16 anos”.

Os 16 anos são a altura certa?

Estou completamente de acordo com o limite legal, que não é cumprido por ninguém. É uma hipocrisia.

E para o início da actividade sexual, também há uma idade indicada?

Não existe, mas sabe-se que não deve ser cedo sobretudo nas raparigas porque a maturação do útero depois da primeira menstruação demora algum tempo. Não há uma idade certa. Os adolescentes são muito diferentes, mas eu diria que antes dos 15, 16 anos não faz sentido. A sexualidade é uma coisa boa, mas deve ser associada à responsabilidade.

TrackBack URI


Entries e comentários feeds.

%d bloggers like this: