Estudo: adolescentes consomem 11 horas de conteúdos multimédia por dia

Janeiro 31, 2010 às 2:24 pm | Publicado em Estudos sobre a Criança | Deixe um comentário
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Nos Estados Unidos, o jovem típico passa quase todos os instantes em que está acordado, salvo quando está na escola, a usar um smart phone, um computador, um televisor ou outro dispositivo electrónico. É o que revela um novo estudo da Kaiser Family Foundation.

Os dos 8 aos 18 anos passam mais de sete horas e meia por dia de volta desses dispositivos, em comparação com as menos de seis horas e meia há cinco anos, data do estudo anterior. E isso não leva em conta a hora e meia que os jovens passam a enviar mensagens de texto nem a meia hora que passam a falar por telemóvel.

E como muitos deles são virtuosos da multitarefa (por exemplo, navegar na internet e ouvir música), concentram nessas sete horas e meia quase 11 horas de conteúdo multimédia.

“Acho que os meus dias seriam uma chatice sem isso”, diz Francisco Sepúlveda, de 15 anos, aluno do oitavo ano no Bronx, que usa o smart phone para navegar na Web, ver vídeos, ouvir música… e enviar ou receber cerca de 500 mensagens de texto diariamente.

As constatações do estudo chocaram os autores, que tinham concluído, em 2005, que a utilização desses meios não tinha por onde crescer mais, e vieram confirmar os receios de muitos pais cujos filhos estão constantemente agarrados a dispositivos de média. Para além disso, o estudo constatou que a intensa utilização dos média está associada a vários aspectos negativos, como problemas comportamentais e notas baixas.

O estudo, que é o mais recente de uma série de três, revelou que o consumo de média pelos jovens cresceu muito mais nos últimos cinco anos do que entre 1999 e 2004, à medida que a tecnologia móvel sofisticada, como os iPods e os smart phones levaram o acesso aos média até aos bolsos e às camas dos adolescentes.

O Dr. Michael Rich, médico pediatra do Hospital Pediátrico de Boston e director do Centro de Média e Saúde Infantil, diz que a utilização dos média é tão omnipresente que chegou a altura de se deixar de debater se isso é bom ou mau e aceitar o facto como parte do ambiente das crianças, “tal como o ar que respiram, a água que bebem e a comida que ingerem.”

Ao contrário do que se pensa, os maiores utilizadores de média declararam passar tanto tempo a fazer exercício como os utilizadores menos ferrenhos. Seja como for, outros estudos têm associado à obesidade o tempo passado frente ao ecrã. Embora a maioria dos jovens objecto do estudo tivessem boas notas, 47% dos mais intensos utilizadores de média (consomem pelo menos 16 horas por dia) tinham, na maioria, notas sofríveis ou más, comparados com 23% dos que consomem três ou menos horas. Os maiores utilizadores de média tinham mais probabilidades do que os seus congéneres moderados de se declararem aborrecidos ou tristes, de se meterem em sarilhos, de não se darem bem com os pais e de não serem felizes na escola.

O estudo não permitiu determinar se a utilização de média cria problemas ou se, pelo contrário, os jovens com problemas se voltam mais para a sua utilização.

“Isto é estonteante”, diz Donald Roberts, professor emérito de Comunicações da Universidade de Stanford e um dos autores do estudo. “Lembro-me de ter escrito um parágrafo no segundo relatório onde dizia que se tinha atingido um tecto no que diz respeito à utilização de média, uma vez que o número de horas do dia é limitado e não havia hipótese de as crianças arranjarem mais tempo para isso. Mas eis que aumentou uma hora.”

O relatório baseia-se num estudo junto de mais de 2 000 alunos do 3.º ao 12.º ano e foi realizado de Outubro de 2008 a Maio de 2009. Em média, os jovens passam cerca de duas horas ligados a um dispositivo móvel, revelou o estudo.

Passam quase outra hora completa com conteúdos “velhos” como televisão ou música, emitidos através de novos meios como o Hulu ou o iTunes. Os jovens passam agora mais tempo a ouvir ou ver conteúdos, ou a jogar nos seus telemóveis do que propriamente a falar. “Uso-o como despertador, porque tem um toque irritante que não pára até ser desligado”, diz Francisco Sepúlveda do seu smart phone. “À noite, posso enviar mensagens de texto ou ver qualquer coisa no YouTube até adormecer. Permite-me falar ao telefone e ver um vídeo ao mesmo tempo, ou ouvir música enquanto envio mensagens.”

A mãe, Janet Sepúlveda, comprou o Sidekick LX há um ano, quando o computador lá de casa não estava a funcionar, para garantir que o filho tivesse acesso à internet: podia precisar para a escola. Mas não é no trabalho de casa que bate o ponto. “Acho que ele o usa 2% para trabalhos de casa e 98% para o resto”, diz ela. “Ao princípio, tirava-lho às 22h e dizia-lhe que não o podia usar mais. Agora, ele sabe que, se não respeitar, posso cortar-lhe o acesso ao serviço durante uma ou duas semanas. Já aconteceu.”

O estudo Kaiser descobriu que mais de sete em cada 10 jovens tem um televisor no quarto e que cerca de um terço tem lá também um computador com acesso à internet. “Os pais nunca sabem tanto como pensam sobre o que os filhos andam a fazer”, diz Roberts, “mas agora criámos um mundo em que eles estão muito mais afastados de nós e os pais não fazem ideia do que os filhos estão a ouvir e a ver nem sobre o que falam”.

O estudo constatou que os jovens usam menos media em lares onde há regras como televisão desligada durante as refeições e nada de televisores nos quartos, ou com limites de tempo.

Victoria Rideout, vice-presidente da Kaiser e principal autora do estudo, diz que, embora se tenha tornado mais difícil aos pais controlarem os filhos, a sua actuação pode continuar a ter efeitos. “Não acho que os pais devam sentir-se incapacitados”, diz ela. “Podem continuar a estabelecer regras e isso ainda marca a diferença.”

Em Kensington (Maryland), Kim Calinan deixava o seu filho Trey, ainda bebé, ver vídeos da “Baby Einstein” enquanto tomava duche e fazia o jantar, e depressa o passou para “Dora the Explorer”. “Aos 4 anos já tinha imensos DVD de matemática e ciência, nos quais navegava sozinho e aprendeu a ler e a fazer contas muito cedo. Por isso, se tivéssemos esta conversa nessa altura, eu teria dito que são óptimos auxiliares educativos”, diz ela.

Mas agora que Trey tem nove anos e é maluco por jogos de vídeo, Calinan pensa de outra maneira. Em 2009, apercebeu-se de que os jogos de vídeo estavam a ser substituídos por outros interesses e a restringir-lhe a interacção social. Depois de perceber que Trey não se queria inscrever em nenhuma actividade extra-escolar para não prejudicar o tempo dedicado aos jogos, Calinan limitou-lhe o tempo à frente do ecrã a hora e meia por dia, e só aos fins-de-semana.

Por isso, na quarta-feira passada, Trey chegou da escola e leu um livro, “Secret Hiding Places”, mas disse que ansiava pelo fim-de-semana para jogar o seu jogo preferido, “Pokemon Mystery Dungeon: Explorers of Sky”.

Muitos peritos consideram que a utilização dos media está a mudar as atitudes dos jovens. “Mudaram os pressupostos dos jovens sobre a maneira de obterem respostas a perguntas”, diz Roberts. “As pessoas podem pôr um problema, quer ele seja ‘Onde há um bom bar?’ ou ‘Será que estou grávida?’ e as informações chovem de todos os tipos de fontes.” Os maiores utilizadores de média, revelou o estudo, são crianças pequenas e jovens adolescentes entre os 11 e 14 anos, de raça negra ou hispânica. E o Twitter ainda não existia.

Fonte: ionline, notícia de 30 de Janeiro de 2010.

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