The New Way of War: Killing the Kids

Julho 19, 2014 às 1:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Artigo do The New Yorker de 4 de julho de 2014.

Photograph by Moises Saman Magnum

Photograph by Moises Saman/Magnum


Posted by Robin Wright

In 1994, on the eve of Rwanda’s genocide, Radio Mille Collines, in Kigali, incited listeners with a venomous message: “To kill the big rats, you have to kill the little rats.” It was a veiled command to murder the youngest generation of Tutsis, the country’s minority tribe. In less than four months, an estimated three hundred thousand children were slashed, hacked, gunned, or burned to death, according to the United Nations. Among the dead were newborns.

The Rwandan slaughter was not unique. The specific targeting of children is one of the grimmest new developments in the way conflicts have been waged over the past fifty years. In the eighteenth, nineteenth, and early twentieth centuries, roughly half of all deaths in conflict zones were civilian, according to the U.N. During the Second World War, civilians accounted for two-thirds of the fatalities. By the twentieth century’s end, almost ninety per cent were civilian.

Children have accounted for increasingly large chunks of those deaths. In 1995, UNICEF reported that roughly two million kids had been killed in wars over the previous decade—more children than soldiers. “Children are not just getting caught in the crossfire, they are also likely to be specific targets,” Graça Machel, the Secretary-General’s Special Representative, declared in the first U.N. “Children in War” report, in 1996. She went on:

When ethnic loyalties prevail, a perilous logic clicks in. The escalation from ethnic superiority to ethnic cleansing to genocide, as we have seen, can become an irresistible process. Killing adults is then not enough; future generations of the enemy—their children—must also be eliminated.

In the twenty-first century, the escalating dangers to children in conflict zones are often overlooked amid the terrible dramas of individual loss, such as the recent killing of three Israeli teen-agers and a young Palestinian. But the worldwide numbers are unprecedented. “We’re seeing everywhere that violence against children is an epidemic, amplified in conflict situations,” Susan Bissell, UNICEF’s chief of child protection, told me this week. “One billion children are today living in countries and territories affected by war or conflict—and it’s fair to conclude that large numbers suffer violent injuries and death.”

According to the Secretary-General’s latest “Children and Armed Conflict” report, issued on Tuesday, one of the most dangerous places to be a child is Syria. To take a single example: in the spring of 2011, Hamza al-Khateeb, a pudgy thirteen-year-old, got separated from his parents during a protest against the government of Bashar al-Assad. His mutilated corpse—with gunshot wounds, cigarette burns, a shattered jaw and kneecaps, and a severed penis—was returned to the family a month later. A government medical examiner reportedly claimed that the boy had been shot during the protest, and that the disfigurement was either normal decay or faked. Pictures of the body circulated on the Internet and in Syrian media, perhaps as a warning to dissidents and parents.

Since then, at least eleven thousand Syrian children—and probably thousands more—are estimated to have died in the vicious civil war. Almost eight hundred were summarily executed, with dozens killed by chemical weapons, according to the Oxford Research Group. One of the most memorable pictures from the Syrian regime’s use of sarin nerve gas last August was the long row of little corpses, wrapped in white shrouds that exposed innocent faces, as they awaited burial.

Other kids have become collateral for combatants. As Israel searched for the three abducted teenagers, UNICEF issued a statement of “grave concern” about the May 29th kidnapping of a hundred and forty Kurdish schoolboys in northern Syria. As they were returning to their hometown from junior-high-school exams in Aleppo, they were seized and taken hostage by the Islamic State of Iraq and al-Sham (ISIS). Four managed to escape; the rest are still missing.

Technology, ranging from nuclear weapons to small cluster bombs, has made non-combatants, especially the young, particularly vulnerable. I lived in Lebanon during its civil war. After the Israeli invasion in the nineteen-eighties, dozens of Lebanese kids were killed by cluster bombs, either in direct hits or by stepping on them or after mistaking them for toys.

When it comes to the use of insidious weaponry, nearly all sides have something to answer for. In Afghanistan, at least thirty-five thousand children have been victims of land mines since 1979, according to the U.N. Special Representative for Children and Armed Conflict. When I visited the orphanage in Kabul in 1999, during the Taliban’s rule, a turbaned official lamented losing orphans who wandered into neighborhoods where land mines or explosives had been deposited by assorted domestic and foreign militaries over the previous two decades. Fifteen years later, Afghan children are still dying from the weaponry of conflicts both old and new.

Death tolls for kids are sometimes fuzzy and often not final, even long after wars end. In Bosnia, more than a thousand children are reportedly missing from a war that ended a generation ago. Aid groups also point out that politicians, militias, and interest groups exploit child deaths—both their numbers and circumstances—for propaganda value, a recurrent controversy in counting the death toll in Iraq’s various conflicts.

Regardless of public revulsion, U.N. officials told me this week, the rising number of child casualties is unlikely to subside anytime soon. Today’s wars are increasingly within countries rather than between them; the fighting has moved to city streets, invading the playrooms of homes and kindergartens.

Photograph by Moises Saman/Magnum.


O papel dos profissionais de saúde na deteção de maus-tratos em crianças e jovens

Junho 24, 2014 às 12:00 pm | Na categoria Uncategorized | Deixe o seu comentário
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Inscrições obrigatórias até 30 de junho

256 948 371/2 (Fax: 256 948 373)


«O papel dos profissionais de saúde na deteção de maus-tratos em crianças e jovens» é o mote para a sessão promovida pela Comissão de Proteção de Crianç
as e Jovens de Arouca, no próximo dia 3 de julho, a partir das 14:00, no Centro de Saúde de Arouca. Teresa Magalhães, do Instituto Nacional de Medicina Legal e Ciências Forenses, I.P. e professora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto é a oradora convidada. A inscrição é obrigatória e gratuita.

Esta sessão resulta de uma parceria entre a Comissão, o Núcleo de Apoio a Crianças e Jovens em risco, o Agrupamento de Centros de Saúde entre Douro e Vouga 1 e o Município de Arouca.

As inscrições podem ser formalizadas até dia 30 de junho, junto da CPCJ de Arouca (gabinete Via Verde Social), pelo telefone 256 940 256, através do e-mail ou na página da Comissão no Facebook (

Os participantes terão direito a um certificado.


Ali ensinam aos pediatras que nódoas negras em sítios estranhos podem não ser leucemia

Junho 9, 2014 às 8:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Artigo do Público de 8 de junho de 2014.

Nuno Ferreira Santos

Catarina Gomes

O núcleo de apoio às crianças e jovens em risco do Hospital Amadora-Sintra é o que mais sinaliza casos de maus-tratos infantis no país. Para detectar os que aparecem escondidos, os médicos têm que tentar sair dos seus mundos e pensar no imponderável. Ficam na desconfortável posição de descortinar, em feridas gravadas na pele com formas geométricas, abusos de pais e mães.

Num dia entram pelas urgências pediátricas do Hospital Amadora-Sintra uma 200 crianças, cada médico de serviço pode chegar a observar 40. A menina de dois anos que lhe apareceu no gabinete com a mãe chegava-lhe com queda de cabelo, peladas em sítios diferentes da cabeça, sinais de emagrecimento, vómitos. O pediatra tratou de pedir análises para perceber se a perda de peso se deveria a falta de vitaminas, poderia estar relacionada com um problema de absorção de alimentos. Remeteu-a para um colega de gastrenterologia. Quanto à alopécia (queda de cabelo), que podia ser devida a uma doença auto-imune, teria que ser vista por um dermatologista.

Quatro meses depois a mesma criança voltou às urgências. Só que agora vinha ao colo de um bombeiro. Tinha o corpo preenchido de negro, eram visíveis as marcas das cordas com que havia sido amarrada a uma cadeira, tinha pequeninas feridas dos palitos que lhe eram espetados na pele. Durante o dia a mãe deixava-a com o namorado que, como estava desempregado, lhe tomava conta dela juntamente com o seu filho. Mas a ele não batia. A própria mãe também era vítima de violência e não conseguia defender a filha. Quando viu a menina, o pediatra que a tinha observado aquela primeira vez ficou como nunca o tinha visto a colega Helena Almeida.“Perturbado.”

“Sentimo-nos horríveis quando deixamos passar um caso destes”, diz Helena Almeida, presidente do núcleo de apoio às crianças e jovens em risco do Hospital Amadora-Sintra. Mesmo quando aparentemente se fez tudo ao nosso alcance. Há casos, como este, que se tornaram bandeira no núcleo, porque o ideal seria que viessem à memória de todos os médicos que trabalham nas urgências pediátricas sempre que vêem uma criança e pensam, como ensinaram à maioria nas faculdades de medicina, sobretudo às gerações mais velhas, a pensar em causas orgânicas – explica a pediatra Maria de Lurdes Torre, outras das médicas que integra o núcleo, e que faz parte de uma secção nova da Sociedade Portuguesa de Pediatria, chamada Medicina Social, por tratar de patologias com origem fora do organismo, na sociedade.

A queda de cabelo não era devida a uma doença auto-imune, os cabelos eram arrancados pelo namorado da mãe, e a perda de peso era porque a menina estava deprimida, recorda Helena Almeida. O caso desta criança, chamemos-lhe Carina, é hoje um dos que estão descritos num powerpoint para que os profissionais de saúde aprendam com ele. Todos os pediatras do Amadora-Sintra têm de fazer formação em maus tratos.

No último slide surge a face ferida de Carina. “A grande preocupação foi a alopécia…” E é como se a frase de Maria de Lurdes Torre ficasse pendurada no ar, porque se instala o silêncio na sala de formação. “O senhor foi preso”, diz a assistente social Patrícia Santos, preenchendo a incómoda ausência de ruído. “A menina está na escola, muito vivaça, está muito bem”, junta, como num convite à descompressão, a psicóloga Filipa Fonseca, também deste núcleo que junta 11 profissionais de várias áreas. Ficou a viver com a avó.

“A esta miúda safámo-la, é a recompensa. Não tirámos tudo o que está para trás, mas a partir de agora pode ter uma vida melhor”, observa Helena Almeida. E é como se o mantra desta formação sobre maus tratos infantis fosse uma frase que Maria de Lurdes Torre diz à margem da sessão: “Não era evidente, eu fiz o melhor que pude, isto não era linear. Acontece a todas as pessoas”. É assim que conseguem seguir em frente. Depois, tentam ir à raiz dos erros nestes casos “mascarados”.

O que os membros do núcleo procuram fazer durante as quatro manhãs de formação por ano é ensinar aquela plateia a contrariar vícios de raciocínio. Helena Almeida chama-lhe “uma guerra de aprendizagem”. Porque é que que um hematoma num sítio fora do normal para uma queda de criança há-de primeiro ser investigado como leucemia?, exemplifica Maria de Lurdes Torre. Porque é que se pensa numa doença rara antes de se pensar em maus tratos?

E porque é que o facto de o pai estar muito nervoso durante a consulta não há-de constar na ficha de observação clínica da criança? Porque os médicos são ensinados a deixarem a subjectividade de lado, a serem o mais científicos possível, e isso significa desvalorizar o facto de o progenitor, que trouxe a criança “por ter caído das escadas”, não parar de bater com o pé no chão durante a consulta. O processo clínico não é visto como sítio para impressões, sentimentos, para o não dito. Nos maus tratos é essa informação, “esses feelings”, como lhes chama, que podem fazer a diferença, elucida a médica, que é também chefe de serviço da urgência e dos cuidados intensivos pediátricos desta unidade dos arredores de Lisboa.

Lurdes Torre lembra-se do caso de um menino de dois anos e meio trazido às urgências por ter caído do sofá. Tinha ferimentos que condiziam com a queda e a idade certa para ser irrequieto. Ia observar as feridas da queda, mas depois pensou naquela mãe, com um comportamento que lhe pareceu desadequado perante uma situação que não era grave, “chorava muito”, e decidiu observá-lo sem a presença dos pais. Nem sequer se tinha aproximado dos genitais quando o menino disse “na pilinha não, o pai aperta a pilinha”. Estava há poucas semanas em casa dos novos pais, adoptivos, e que, por isso, tinham passado por todos os crivos e mais alguns para serem poderem cuidar daquele menino tão desejado. Para a médica, este caso também serve de lembrete de como até os pais mais insuspeitos podem ser agressores. Biológicos e adoptivos, pobres e ricos.

Em 2013 estavam em 20% os casos de maus-tratos infantis detectados no hospital que já tinham passado pelas urgências pediátricas pelo menos uma vez, menos de metade do que sucedia até 2005. O objectivo é que cheguem a 10%.

Outro “caso paradigmático” é aquele a que a enfermeira Joana Romeiro chama “a história da abelha”. A menina chegou com a perna direita muito inchada porque, segundo a mãe, havia sido picada por uma abelha. Fez-se um raio X e tinha uma fractura.

Os slides seguintes mostram outras radiografias que seccionam o esqueleto da mesma criança: perna esquerda, uma fractura; braço direito duas, braço esquerdo uma fractura. Depois uma Tomografia Axial Computadorizada mostra um hematoma craniano. Cinco fracturas, seis meses de vida. Tinha passado 13 vezes pelas urgências. No powerpoint podem ler-se os motivos das visitas ao hospital, que incluem muitos dos clássicos destas idades: obstrução nasal, cólica de recém nascido, bronquiolite. Em torno do quarto mês a menina da picada veio por um traumatismo craniano, porque tinha sido deixada cair por uma irmã. A seguir veio por dermatite seborreica.

“O que é teríamos feito diferente? Onde errámos?”. Nenhum dos formandos responde. Talvez a suposta queda do colo da irmã, que pareceu verosímil ao médico que a atendeu, pudesse ter sido investigada, sugere Lurdes Torre. Descobriu-se então que a família era de risco: os pais tinham atraso cognitivo, o tio era toxicodependente, o avó alcoólico. A criança esteve 19 dias internada, foi retirada à família e colocada numa instituição de acolhimento.

Durante a formação Helena Almeida aconselha os profissionais de saúde a “saírem dos seus pés, do seu olhar”. É como se dissesse que é preciso que consigam sair de si mesmos, do mundo que lhes é familiar e onde os pais não agridem os filhos. Só assim poderão aceitar como plausíveis hipóteses que lhes surgem como impensáveis. Pedir análises para detectar infecções sexualmente transmissíveis numa bebé? Sim, se houver suspeitas de abuso, como já lhes aconteceu com um bebé que tinha clamídia, preconiza. “Os médicos fogem destes casos”, diz, porque consomem muito tempo numa urgência, é verdade, mas também porque “vão contra a nossa estrutura moral, os nossos princípios mais básicos. Preferimos pensar que não existem.”

Os profissionais de saúde que hoje ali estão sentados saberão todos que as queimaduras têm um centro necrótico, como surge num slide. Mas será que estão preparados para descortinar formas geométricas em feridas gravadas na pele de crianças? Uma meia-lua pode ser a marca de uma frigideira, um rectângulo incompleto pode revelar tareia de cinto, vários pontinhos muito juntos, os pelos duros de uma escova de cabelos. “As feridas acidentais não têm padrões, não sugerem figuras”, termina Helena Almeida.

A presidente do núcleo aconselha-os a não terem medo “de suspeitar a mais”, mesmo que isso implique muitos recursos. “Não deixem é passar casos”. Têm que colher indícios e depois deixar a justiça fazer o seu trabalho.

O caso seguinte é o de uma adolescente de 12 anos que diz ter sido abusada sexualmente pelo namorado de 23, que conheceu online. A família corrobora a história. A Judiciária intervém e nada descobre sobre o pretenso agressor, que nunca existiu. Veio 17 vezes às urgências, passou dezenas de horas em consultas médicas e exames. No fim, descobriu-se que tinha problemas psiquiátricos, com antecedentes de doença mental na família. “Era tudo confabulação”, recorda outro médico do serviço.

A lição a tirar de casos que passaram desapercebidos e dos que eram mais do que pareciam é que mais vale pecar por excesso, defende a presidente do núcleo. Quem pensa nesta afirmação como uma aproximação a uma realidade que se costuma associar aos Estados Unidos, em que se tornaram mediáticos casos de crianças tirados injustamente às famílias, pode afastar esse cenário, comenta Helena Almeida. “Estamos muito longe disso”. Prova disso, sublinha, é que mais de metade dos casos de maus-tratos, excluídos os casos de negligência, são sinalizados pelos hospitais. Há 44 núcleos hospitalares idênticos no país, este é o que mais sinaliza – no ano passado deram a conhecer 234 casos, 60% são maus tratos físicos, 35% são de abuso sexual. A idade média é de 9 anos.

“Não deviam ser os hospitais os grandes declarantes”, nota, porque isso significa que “só são identificados os maus tratos quando é grave, quando há abuso sexual com penetração, quando há fracturas. Estamos a apanhar as situações claramente visíveis, a ponta do icebergue”. Nos países é que a cultura da detecção dos maus-tratos está mais desenvolvida, casos da Inglaterra e da Holanda, é mais nas escolas que se detecta”.

O principal agressor nos casos de maus tratos é o pai (32%), depois a mãe (20,8%), seguida dos conhecidos que não fazem parte da família (12%). Pessoas próximas da criança, portanto. Mas se os profissionais de saúde estiverem à espera que sejam os miúdos a tornar evidente que são vítimas, com comportamentos hostis contra os seus abusadores, precisam de perceber que isso nem sempre é verdade, explica Helena Almeida. “As crianças estão preparadas para gostar dos adultos que tomam conta delas. A mãe gosta de mim e bate-me, então bater é sinal de afecto.”

Lembra-se que havia uma menina que gostava muito da ama onde a mãe a deixava todos os dias. Por isso a mãe defendia-a, não acreditava que lhe pudesse fazer mal, se a filha se mostrava tão contente quando lá ficava. Uma criança de quatro anos chegou-lhes às urgências com uma fractura do baço, outra, de meses, com uma perna partida, outra com uma fractura do braço. O núcleo conseguiu montar o puzzle e encontrar o fio condutor: tinham em comum a mesma ama, aquela de quem a menina tanto gostava.

Às vezes querem saber o que aconteceu a seguir, aos meninos, mas também ao agressor. É difícil acompanhar as histórias até ao fim, estão sempre a ser interrompidos por “outros casos a chegar”, diz. No caso dos três meninos souberam na imprensa: “Ama detida por agressões a bebés”. “Não é prémio, é consolação”, diz Helena Almeida.

Exemplos de possíveis sinais de alerta

Fracturas Em crianças com menos de 2 meses, entre 80% das fracturas são causadas por maus tratos;

Abaixo dos 3 anos a probabilidade desce para 25%

Uma criança que cai dificilmente apresenta fracturas nas costelas

Queimaduras Cada objecto ou acção deixa uma marca específica que os médicos aprendem a reconhecer. “As feridas acidentais não têm padrões, não sugerem figuras geométricas”

Abuso sexual Em crianças mais novas: Temores nocturnos Obediência exagera ao adultos e preocupação em agradar Dificuldade de relacionamento com outras crianças Interesse e conhecimento desadequado sobre questões sexuais

Nos jovens: Dormir com roupa vestida Recusa em tomar banho Auto-mutilação

Fonte: Núcleo Hospitalar de Apoio às Crianças e Jovens em Risco do Hospital Fernando da Fonseca


Ex-child soldiers live with scars of war

Maio 28, 2014 às 12:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Reportagem do Los Angeles Times de 11 de maio de 2014.

mais fotografias da reportagem aqui

Rick Loomis Los Angeles Times

Conflict in the Central African Republic

By Alexandra Zavis | Photography by Rick Loomis

SIBUT, Central African Republic — Not long ago, Charly had all the money he needed. He had a rebel uniform that commanded fear in his hometown. He had an AK-47, and he wasn’t afraid to use it.

He was still a boy, but he felt like a man.

Now he has returned to his old life. He is once again a helpless boy. The thought of it makes him sit rigid with anger, his eyes flashing.

“See the shoes I’m wearing,” the teenager snapped, pointing at a pair of dusty blue flip-flops. The soles were so full of holes that he might as well have been barefoot.

With the rebels, he said, it was different: “I had boots, a uniform and a gun in my hand.”

With the rebels, he had power.

The conflict tearing the Central African Republic apart has not only turned neighbor against neighbor. It has brought childhood to a halt.

Children have seen their parents hacked to pieces. They have watched as boys and girls just like them were shot or maimed. Some have been forced to make cold calculations far beyond their years, taking up arms with the same fighters who upended their lives or killed their relatives.

Children have been pawns in virtually every conflict in this country plagued for decades by coups, mutinies and rebellions. When a mostly Muslim rebel coalition known as the Seleka seized power a little more than a year ago, as many as 3,500 children were in the ranks of armed groups. The number swelled to 6,000 or more as self-defense militias, mostly Christian or animist, started fighting back, UNICEF estimates.

Some, like Charly, were handed guns. Others toted cargo or were taken as sex slaves.

Children barely in their teens still accompany bands of fighters along the rutted 100-mile road from Bangui, the capital, to Charly’s hometown, Sibut. Even by day, the road is dangerous. Armed men menace travelers from makeshift roadblocks; other fighters march the winding route with rifles and machetes slung over their shoulders and protective amulets draped around their necks.

The Seleka left behind nearly 400 children when they were pushed from power in January. Even as the fighting picked up again recently, UNICEF negotiated the release of more than 1,000 others from the self-defense militias.

The agency made some of the former rebel children available to tell their stories on the condition that their precise location and their full names not be used.

On a recent day, dozens of the children were gathering on a shaded veranda here. Some were about to perform a reenactment of their lives with the rebels for visiting aid workers. They carried wooden guns, brandishing the rough-hewn toys with the ease born of experience.

Several of the children appealed to the visitors with shy, winsome smiles. A few were angry, shouting that they needed help. A pregnant young girl was pushed forward. “See what they did?” a boy said of the rebels.

Sitting on a bench in a dim, windowless room, Charly recalled the day the rebels arrived.

It was more than a year ago. He was selling soap, sugar and other goods from a market stall here. At 15, it provided his only income. His father was dead, and his mother couldn’t support him.

The fighters streamed in on motorcycles and in pickup trucks, firing their guns, ransacking homes and businesses and setting them on fire.

“They were firing everywhere,” Charly said, his voice quavering. “I abandoned everything and ran.”

The fighters were with the mostly Muslim rebel alliance. Charly is Christian.

But something was more pressing than his fear of the rebels: Survival.

“I entered the Seleka to feed myself,” Charly said.

At first, he recalled, the rebels were suspicious of the lanky local boy who appeared in their midst. Then they found out he could help them. He wasn’t afraid, and he knew the town.

“When they saw I was brave, and I could point out houses to rob, they accepted me,” he said.

He was given a Kalashnikov assault rifle and sent on patrols around his hometown. His fear was replaced by swagger.

“Everyone saw me carrying an AK,” he said. “One day, an old woman tried to curse my grandmother. I was furious, so I shot her in the foot.”

At 14, Jordy doesn’t look much taller than the gun he carried for the rebels.

“It was a way to protect myself, and it was a way to survive,” he said.

It was also a way to seek revenge against the Seleka fighter he said killed his brother and a cousin. One day, he spotted the man. Jordy wanted to shoot him, but other rebels intervened, he said dully.

He doesn’t like what he did with the Seleka.

“I did a lot of bad things,” he said, eyes downcast. “I ransacked. I pillaged. I took people’s things by force.”

When the rebels continued their advance on Bangui, Jordy, Charly and other youths went with them. Some were forced to go, but others were enticed by the prospect of looting in the capital.

Jordy’s grandmother, who has cared for him since his parents separated years ago, followed him to Bangui to beg for his release. His commander agreed, but at first Jordy didn’t want to go.

“When I saw them starting to kill people, that’s when I left,” he said.

Jordy was fortunate to have his grandmother plead his case. Other children don’t even know where their relatives are — hundreds of thousands have fled their homes in the fighting. Humanitarian workers who are caring for some of the former fighters and sex slaves can spend months trying to locate the children’s families.

Even when family members can be traced, they may be reluctant to accept a former fighter into their homes. And children who are used to carrying weapons can find it hard to obey their parents.

Jordy said he hasn’t had any trouble with the mostly Christian and animist militias that are now ascendant in this area. He shares the same religion and ethnicity as the fighters.

“They even gave us food,” he said.

But in Bangui, militia members ransacked a center that helps the children; a boy who tried to join the anti-Muslim militias was killed when the fighters learned that he’d previously been with the Seleka.

And here in Sibut, some neighbors can’t forgive the children for joining the rebels. Not long ago, a man who recognized Jordy assaulted him in the street, knocking him down.

Charly was sitting with Jordy as he told of being beaten. He put his arm around his friend, and they were two boys together against the world.

Mireille was 14 when a rebel colonel spotted her last year selling homemade alcohol by the side of the road. He announced that he wanted to marry her.

“I said, ‘No, I’m still young,’ ” recalled the slender girl with intricately braided hair. She sat hunched on a bench as she told her story, wringing her hands in her lap.

That night, the rebel showed up at her home, where she was alone with three siblings. Their widowed mother was out of town at a funeral.

Mireille was taken to a Seleka base. The colonel gave her a new name, Kadija. And he raped her repeatedly.

None of the other rebels were allowed to touch her. The colonel assigned an aide to watch her when he went out looting.

“I wanted to escape, but I couldn’t because everyone had weapons,” she said.

After several months, the colonel lost interest in Mireille and took other “wives,” including her older sister. Mireille doesn’t know what happened to her. She tries not to think about it.

The reunification process has been especially fraught for the 78 girls freed by the Seleka. Like Mireille, most were sexually abused. Their families and communities often consider them tainted.

It took two weeks for Mireille’s mother to allow her into the house again. At first, she stayed with neighbors who prevailed upon her mother, arguing that it wasn’t Mireille’s fault she had been taken. Church members also spoke on her behalf.

Today Mireille has no interest in getting married or starting a family. The colonel ended those dreams.

Over and over, she used the same words for what he did to her: “He deflowered me.”

She said she’d heard later that the colonel had died in battle. Her voice betrayed no emotion.

Many children still march with the fighters. Those who have left struggle to find a way forward.

Mireille said she’d like to go back to school, maybe learn to sew. But schools in her area have been closed for months.

Jordy said he would like to try farming. “If the NGO here can help me to get cows, just so I can have some money, that will help,” he said.

Charly has already been approached by militias on the other side, eager to take advantage of his knowledge of the Seleka.

He regrets ever leaving the world of men to take care of his ailing mother.

“With a gun,” he said, “you always have money.”

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Proteja Brasil – Aplicação para smartphones e tablets criado para facilitar denúncias de violência contra crianças e adolescentes

Maio 28, 2014 às 6:00 am | Na categoria Divulgação, Site ou blogue recomendado | Deixe o seu comentário
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Tribunal da Relação absolve pais antes condenados por agredirem filho com um cinto

Maio 17, 2014 às 3:00 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 13 de maio de 2014.

rui gaudêncio

Ana Dias Cordeiro

Os pais foram condenados, em primeira instância, por crime de ofensa qualificada, depois de o Ministério Público (MP) ter deduzido acusação por maus tratos. Mas os juizes da Relação não concordaram e consideraram ser este um crime de ofensa simples, de natureza semi-pública e que requer uma queixa para ser investigado. Os pais foram absolvidos porque o MP não tinha legitimidade para deduzir acusação.

Eram dez da noite de 19 de Março de 2012, quando os pais perceberam que o filho andava a encobrir os maus resultados escolares e estaria a fumar. Na casa onde vivem, depois de uma zanga e perante a impertinência do filho, a mãe bate-lhe com o cinto. Apesar da repreensão, que “não acata”, o rapaz de 11 anos continua a sorrir. O pai interfere e também ele atinge o filho com um cinto. Nos dez dias que seguem, o rapaz fica de cama com “equimoses de coloração arroxeada” nas nádegas e pernas, algumas “dolorosas à palpação”.

Uma madrinha do rapaz alerta o Ministério Público que abre um processo e deduz acusação por maus tratos contra os pais, como conta o Diário de Notícias na edição desta terça-feira. O acordão de 2 de Abril, publicado no final daquele mês, não esclarece se este foi um acto isolado, embora diga que não existam provas de “reiteração” deste comportamento por parte dos pais.

No julgamento, em primeira instância, mãe e pai foram condenados, ainda em 2012, por crime de ofensa à integridade física de forma qualificada, e não por maus tratos. Os juizes consideraram que, embora os pais tenham agido “de forma violenta” e o acto mereça “censura penal”, não se enquadrava no crime de maus tratos, lê-se no acordão. Para tal, seria necessária a intenção provada de “causar dor e sofrimento”, explicaram os juizes, que, além disso, consideraram não terem sido apresentados, em tribunal, elementos convincentes de que tivesse “existido uma reiteração” exigida por esse tipo de crime, outra das premissas para o crime de maus tratos.

O tribunal considerou, no entanto, que o uso do cinto numa criança “indefesa” de 11 anos, não se enquadrava, “pela sua desproporcionalidade, no âmbito de um poder/dever de educação/correcção” dos pais. E estes foram condenados por ofensa à integridade física na forma qualificada, um crime previsto quando há “ofensa do corpo ou da saúde” de uma pessoa, incorrendo numa pena de prisão até três anos ou multa.

Perante “a censurabilidade” do acto e “as lesões causadas” que resultaram em “doença por dez dias”, o MP defendeu a improcedência do recurso, que a defesa interpôs e conseguiu. Tinha a acusação considerado que os pais “não podiam infligir castigos que não se encontram compreendidos no dever de correcção dos progenitores para com os seus filhos” e que “os arguidos agiram livre e deliberadamente, sabendo que as suas condutas eram proibidas e punidas por lei penal”.

Os progenitores vieram depois, e durante o recurso, a justificar “o meio utilizado e a agressão” como forma de “corrigir o comportamento escolar” do filho, para que este pudesse “vir a ter, no futuro, uma vida melhor e mais responsável”, a que os juizes foram sensíveis.

No recurso no Tribunal da Relação do Porto, que os absolveu no mês passado, a defesa foi dirigida na tentativa de provar que o comportamento dos pais não configurava um crime de ofensa à integridade física de forma qualificada, um crime público, mas um crime de ofensa à integridade física de forma simples, de natureza semi-pública, para a qual teria sido preciso haver queixa, sendo assim posta em causa “a legitimidade do Ministério Público para deduzir acusação desses factos”.

Os juizes desembargadores entenderam que embora sendo “o comportamento dos pais de censurar”, não pode ser considerada a “forma qualificada” no crime de ofensa à integridade física por não haver “aquele acrescido e especial juízo de reprovação, indispensável” para o considerar como tal. Assim, sendo apenas aceite a “forma simples” da agressão, o Ministério Público não poderia ter deduzido acusação, os pais foram absolvidos.


A Natureza Transdisciplinar da Violência sobre a Criança – Conferência

Maio 14, 2014 às 12:15 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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“Castigos corporais não são permitidos em caso algum”, diz magistrada

Maio 14, 2014 às 9:32 am | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 14 de maio de 2014.

eva carasol

Sem nunca se pronunciar sobre o caso dos pais que castigaram o filho com um cinto, deixando-o incapacitado e de cama durante dez dias, noticiado nesta terça-feira pelo Diário de Notícias, a magistrada do Ministério Público (MP) Helena Gonçalves explicou ao PÚBLICO que os castigos corporais não são, “nunca”, permitidos em Portugal.

“Os castigos corporais não são permitidos em caso algum” e podem constituir uma forma de mau trato e configurar “situações de perigo, que legitimem a intervenção do sistema de protecção de crianças previsto na Lei de Promoção de Protecção de Crianças e Jovens em Perigo”, afirmou a magistrada numa entrevista por email.

Além disso, esclareceu a procuradora, o Código Penal atribui ao Ministério Público legitimidade para dar início ao procedimento criminal, mesmo quando este depender de uma queixa. Ora, foi o facto de não existir uma queixa, neste caso do rapaz de 11 anos espancado pelos pais, que levou o Tribunal da Relação a determinar que o MP não tinha “legitimidade” para deduzir acusação, como se lê no acórdão de 2 de Abril, publicado no final desse mês.

Os pais começaram por ser condenados, em primeira instância, por ofensa à integridade física qualificada e depois absolvidos pelo Tribunal da Relação do Porto. Os juízes consideraram ser este um crime de ofensa na forma simples e não agravada e decidiram a absolvição com base numa questão processual – sendo a ofensa na forma simples um crime de natureza semi-pública, só poderia ter sido deduzida acusação pelo MP se tivesse havido queixa.

No entender de Helena Gonçalves, porém, e de uma forma geral, a legitimidade é atribuída ao MP para iniciar um processo “desde que o interesse do ofendido (vítima) o aconselhe” ou quando “o direito de queixa não puder ser exercido”; e também em situações em que quem detiver esse direito “for o agente do crime” e quando a vítima for menor ou não entender o significado do exercício do direito da queixa. E essa seria a situação do rapaz de 11 anos.

Cigarros e maus resultados
Tudo começou na noite de 19 de Março de 2012, quando os pais perceberam que o filho andava a encobrir os maus resultados escolares e estaria a fumar. Na casa onde vivem, depois de uma zanga e perante a impertinência do filho, a mãe bateu-lhe com o cinto. Apesar da repreensão, que “não acatou”, segundo o acórdão, o rapaz de 11 anos continuou a sorrir. O pai interferiu, atingindo também o filho com um cinto.

Nos dez dias seguintes, o rapaz ficou de cama com “equimoses de coloração arroxeada” nas nádegas e pernas, algumas “dolorosas à palpação”. O acórdão não esclarece se este foi um acto isolado, embora diga que não existam provas de “reiteração” deste comportamento por parte dos pais.

No julgamento, em primeira instância, mãe e pai foram condenados, ainda em 2012, por considerar o tribunal que o uso do cinto numa criança “indefesa” de 11 anos, não se enquadrava, “pela sua desproporcionalidade, no âmbito de um poder/dever de educação/correcção” dos pais. Estes vieram depois, e durante o recurso, a justificar “o meio utilizado e a agressão” como forma de “corrigir o comportamento escolar” do filho, para que este pudesse “vir a ter, no futuro, uma vida melhor e mais responsável”, a que os juízes desembargadores foram sensíveis.

No recurso no Tribunal da Relação do Porto, que os absolveu no mês passado, a defesa tentou provar que o comportamento dos pais não configurava um crime de ofensa à integridade física de forma qualificada, um crime público, mas um crime de ofensa à integridade física de forma simples, de natureza semi-pública, para a qual teria sido necessária uma queixa.

Relatório Anual de Avaliação da Atividade das CPCJ no ano de 2013

Maio 12, 2014 às 1:00 pm | Na categoria Divulgação | Deixe o seu comentário
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descarregar o relatório aqui

Mais situações de perigo comunicadas às comissões de protecção de crianças

Maio 8, 2014 às 1:30 pm | Na categoria A criança na comunicação social | Deixe o seu comentário
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Notícia do Público de 5 de maio de 2014.

fernando veludo nfactos

Andreia Sanches

Em 2013, foram acompanhados mais de 71.500 crianças e jovens. Com o alargamento da escolaridade, as escolas identificam mais situações. Nos novos processos há mais relatos de exposição a violência doméstica e mais meninos entregues à sua sorte.

O número de menores acompanhados pelas comissões de protecção de crianças e jovens (CPCJ) voltou a crescer. Foram 71.500 ao longo do ano passado. Acentuou-se a tendência de aumento dos relatos relacionados com a exposição a comportamentos que podem pôr em causa o seu desenvolvimento e bem-estar — na maioria dos casos, a cenas de violência familiar nas quais não são o alvo directo. Esta foi mesmo a situação mais presente nos novos processos instaurados em 2013.

São dados do novo Relatório Anual da Avaliação da Actividade das CPCJ que é hoje apresentado, em Setúbal, num encontro que reúne representantes de muitas das cerca de 300 comissões de protecção que existem no país.

Os grandes números do documento são estes: no ano passado, as CPCJ lidaram com cerca de 71.567 crianças (mais 2560 do que em 2012). Uma parte dos processos (perto de 34 mil) vinha do ano anterior e 30.344 foram instaurados ao longo do ano (28.498 novos e 1846 que resultaram de transferências entre comissões de protecção). A 31 de Dezembro, continuavam activos mais de 37 mil (ver infografia).

“Não é um número muito significativo, mas há um aumento das sinalizações”, resume Armando Leandro, que desde 2005 preside à Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco.

O juiz conselheiro jubilado do Supremo Tribunal de Justiça destaca a questão da “exposição à violência doméstica vicariante”, ou seja, àquela que não é dirigida directamente à criança, “mas que é tão prejudicial como se fosse”. Ela representa 94,5% dos 8600 casos de exposição a comportamentos que podem pôr em causa o desenvolvimento e bem-estar dos menores e levaram à abertura de processos.

Reconhecendo que o stress causado por razões económicas pode fazer subir a violência familiar, Armando Leandro diz não ter  elementos para avaliar até que ponto é isso que está a acontecer.

Mais entregues a si próprios

Tendo em conta ainda, e apenas, os processos abertos ao longo do ano (excluindo, portanto, os que tinham transitado de anos anteriores) a negligência perdeu peso — ainda que se mantenha a segunda causa de sinalização (6407 casos). A terceira situação de perigo reportada tem a ver com o chamado direito à educação: 5551 casos de abandono, absentismo, insucesso escolar e fins que deram origem à abertura de novos processos.

Já as situações de crianças abandonadas ou entregues a si próprias quase duplicaram, tendo passado de 580 para 1150. Cerca de dois terços dos casos estão relacionados com o facto de as crianças ficarem temporariamente sozinhas em casa. Também aumentaram os casos de jovens que adoptam, eles próprios, comportamentos que os põem em perigo (consumo de álcool e drogas, por exemplo), de 3177 para 3907.

Armando Leandro defende que mais sinalizações traduzem, sobretudo, uma mudança positiva na sociedade portuguesa. Por um lado, “um aumento da sensibilização da parte da comunidade para os direitos das crianças e para a inadmissibilidade da sua violação”. Ou seja, as pessoas estão a denunciar mais. O juiz faz questão de dizer que “a sinalização de uma criança em perigo é um acto de amor, não é um acto de denúncia”.

Por outro lado, lembra, a escolaridade passou a ser obrigatória até aos 18 anos. Ou seja, há mais crianças e jovens na escola, durante mais tempo, alvo de atenção daquela que continua a ser a entidade que mais casos de perigo remete para as comissões de protecção: a escola.

Em 2013 foram instaurados mais 1195 novos processos do que em 2012; 80% deste aumento está relacionado com situações de abandono e insucesso escolar ou absentismo em jovens com mais de 15 anos — o tipo de situação que leva Armando Leandro a lembrar que uma criança que não estuda “é uma criança pobre”.

O magistrado lembra ainda que, ao frequentarem os estabelecimentos de ensino, outras situações de perigo que possam afectar as crianças (maus tratos, por exemplo), que não as directamente relacionadas com o direito à educação, passam a ser, também, mais facilmente detectáveis. “Tudo isto é positivo.”

Mais retiradas aos pais

À semelhança de 2012, em 2013 a maioria das medidas aplicadas pelas comissões de protecção de crianças e jovens correspondeu às chamadas “medidas em meio natural de vida” (30.898, ou seja, 89,7% do total). Entre estas, Armando Leandro destaca o apoio psicopedagógico e económico às famílias. “O que só diz bem das comissões”, porque o que se pretende é que, sempre que possível, os pais consigam reestruturar-se para manter as crianças consigo.

Ainda assim, 2013 registou um ligeiro aumento das crianças que foram retiradas e encaminhadas para instituições ou famílias de acolhimento — cerca de 3560 casos contra 3460 em 2012. O mesmo responsável considera que “é natural”, porque os jovens que chegam às CPCJ são de idades cada vez mais avançadas. Basta dizer que em 2012 o grupo etário dos 0 aos 5 anos era o mais representado nos novos processos e, actualmente, o que tem maior peso é o dos 15 aos 18 anos (28% do total). Nestas idades, diz Leandro, “é mais difícil a reparação [das situações de perigo] em meio natural de vida” pelo tipo de problemas que estes jovens trazem. “Embora o desejo seja o de que haja cada vez menos medidas de acolhimento institucional”, acrescenta.

A síntese divulgada à comunicação social não contém dados sobre os meios que as comissões de protecção têm para trabalhar. Armando Leandro reconhece que há sempre o desejo de ter mais técnicos, mas que tal não está previsto. E que o tempo de que os elementos das CPCJ dispõem “ainda não é o desejável”: a maioria está a tempo parcial nas comissões. Sublinha, contudo, “a enorme capacidade de trabalho e o empenho notável” das CPCJ, que acabam por fazer muito mais do que seria exigível. E diz que cerca de uma centena já se envolveram num projecto que visa a elaboração de um “diagnóstico infanto-juvenil” das suas áreas de acção e que permite identificar, com a orientação da Comissão Nacional de Protecção de Crianças e Jovens em Risco, os problemas locais, os meios para os combater e traçar planos plurianuais de prevenção. Porque a missão destas comissões não se limita a agir quando os problemas surgem.


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